o safar das redes na arte solheira (I)


a dança do safar

na arte da solheira o safar é sem dúvida a tarefa mais trabalhosa.

durante alguns registos iremos acompanhar o bailar das redes e como, quando e onde pode ser feito o safar das redes.

olhar é o princípio da descoberta das coisas e do estudo dos processos em que se inserem

(cais do bico; murtosa; 2010)

verão


sobre o mar o dia cai

o verão lateja-me nas veias

o corpo reverbera em vermelho e azul

sinto um aconchego de conchas junto ao pescoço

e apetece-me morrer aqui em pleno agosto

 

estou cheio de vida

ofereço-te tudo o que o mar pode dar

porque já não sei distinguir entre mim e o mar

são peixes dourados estas mãos que te acariciam o rosto

e de água este corpo que te aguarda em ondas sucessivas

 

o verão lateja-me nas veias

em cada jarro de vinho bebo

o ritmo pontuado por violas e flautas

 

madrugada dentro o orvalho humedece o desejo

e caminho ao encontro do sol que me espera sobre a areia

 

o verão lateja-me nas veias

e agora já posso morrer porque estou cheio de vida

 

ti miguel bitaolra


abraço ti miguel

o bordão
agora apoio
do corpo cansado

o saco de plástico
os cigarros e o isqueiro
resguardados

o homem do mar
o ti miguel bitaolra
amigo de muitos anos
senta-se agora
na cadeira
da ti rosa
onde o mar escorre
e a companha se junta
para falar da safra
do futuro
do passado
beber um copo
jogar dominó
uma sueca

continuar viva

do vazio


 

era inverno em mim

incomensuráveis espaços diminutos

vazias casas inóspitas prisões inescapáveis

pesadelos diurnos de percursos circulares

acesas noites gélidas de sonos episódicos

invertebrado tempo de inumeráveis dias

antiquíssimo bater de horas

ressoando em torres ancestrais

palidez lunar de fantasmas seculares

meticulosamente se constrói

o vazio

 

muralha de bordões


 

muralha de bordões
quando em horas felizes
o peixe enche o saco
é necessário “segurá-lo”
para que as ondas não o arrastem pela areia
enquanto se espera o momento favorável
para o levar para seco
e fazer a escolha do peixe

então
um exército
armado de bordões
constrói uma muralha
e salva-se uma maré boa

(torreira; companha do marco; 2009)

 

etimologia de xávega, xábega, jábega …. em castelhano


o mar faz o barco

porque é importante saber de que falamos quando falamos, é importante fazer aquilo a que os sociólogos chamam “operacionalização do conceito”, este é um dos textos linguísticos que melhor encontrei para ir até à raiz e, a partir dele, embora em castelhano, se fale de xávega sabendo o que é.

contributo que aqui deixo e que recolhi na net, embora não citando o link, está perfeitamente identificada a autoria e, com recurso a qualquer motor de busca encontrável.

 

Historia lingüística de jábega

zé trabalhito: presente!


 

os pescadores não morrem, partem para outros mares (dilvandro)

do mar vim

ao mar regresso

a vida é sal que trago em mim

mar feito corpo

o mar nasce-me nos olhos

onde morrem as lágrimas

 

secas de o não ter

salgadas mulheres em terra

homens no mar

 

é no desespero que se salgam os olhos

 

mar

sal

suor

rede

sal

peixe

raiva

sal

e o mar de novo

 

 

…. do mar !

tenho medo

é de andar de carro

o bordão da regeira da ré


(torreira; companha do murta; 2009)

as mulheres da torreira
sabem do bordão
o peso
carregam-no às costas

como carregam
a lida da casa
as contas da mercearia
o pão para os filhos
o peixe para a janta

a sardinha
arde na brasa
a cavala na panela
as batatas

mais um dia
menos um dia
quem sou eu
para lhes falar do tempo
se só sei ouvir o mar