dos nós
desfazer nós
é trabalho sujo
de mãos outras
ditas limpas
desfazer nós
é desfazermo-nos
criá-los é fazermo-nos
nas mãos do pescador
a arte de fazer e desfazer
os nós das cordas
mas essa é outra arte

(torreira; 2010)
dos nós
desfazer nós
é trabalho sujo
de mãos outras
ditas limpas
desfazer nós
é desfazermo-nos
criá-los é fazermo-nos
nas mãos do pescador
a arte de fazer e desfazer
os nós das cordas
mas essa é outra arte

(torreira; 2010)
não creio
não creio em deus
e isso traz-me uma
felicidade diversa
como não existe
não me trará
qualquer problema
menos um
com que me
preocupar

(torreira; 2012)
vive
tudo é efémero
e belo
o momento existe
e tu
vive

(costa de lavos; 2017)
redeiros
arte minuciosa essa
como se de aranha
labor de mãos sábias
recolho nelas
o terem sido antes de mim
muito antes
as mãos dos meus maiores
mãos duras e simples
de trabalho
mãos transparentes
e límpidas
mãos que faço minhas
com orgulho
de ser deles mais um
não escrever eu
como eles rede faziam
é o que me dói

(torreira; 2015)
contigo
estendo-te a mão
para que te ergas
não para me afundar
contigo

(torreira; aparelhar das mangas 2016)
judas intemporal
judas era um bom homem
tão bom
que traiu o amigo e o vendeu
na versão canónica suicidou-se
numa nova leitura com o prémio
comprou terras para cultivo
a segunda versão parece-me
mais razoável
mais do nosso tempo aqui
intemporal

(torreira; 2010)
vidas com escamas
quantas safras
em quantos sacos
estas mãos
vidas com escamas
isso te digo
destes homens
destas mãos

(torreira; 2015)
dos capatazes
falam como se
donos fossem do que
lhes não pertence
porque nosso
não têm senão
a ilusão de um poder
efémero delegado
calçam sapatos luva
que nas mãos
melhor lhes ficariam
existem porque são
mandados para mandar
nada me custa
por esse mesmo motivo
mandá-los
sabem bem onde

mãos de mar, de trabalho, estas
ser sem o outro
por dentro dos dias
sempre por dentro dos dias
abrir os braços aceitar
aprender com o tempo
saber cortar
o que de podre nele
numa outra mão os dedos
prendem o que de são
o esquecimento chega
como se uma manhã súbita
não és outro
és sem o outro

(torreira; remendar rede)
vou por aí
não conto os dias
foram são serão
sempre dias
conto risos e lágrimas
por chorar
os que se lavam em lágrimas
não imaginam como é
ficar sujo por falta delas
conto as mãos
as dadas as negadas
as que nunca e as que sempre
as do engano também
conto sonhos e desilusões
amigos que morreram
e outros que partiram
sem morrer
conto-me como coisa outra
um eu dentro de mim
revisito-me para me ver melhor
sinto que algures fui
hoje como sempre
vou por aí
sim amigo poeta
vou por aí
enquanto puder
vou por aí
vou por aí

(por aí; ao pé do mar; num ano qualquer)