mãos de mar (45)


redeiros

arte minuciosa essa
como se de aranha
labor de mãos sábias

recolho nelas
o terem sido antes de mim
muito antes
as mãos dos meus maiores

mãos duras e simples
de trabalho
mãos transparentes
e límpidas

mãos que faço minhas
com orgulho
de ser deles mais um

não escrever eu
como eles rede faziam
é o que me dói

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(torreira; 2015)

mãos de mar (41)


dos capatazes

falam como se
donos fossem do que
lhes não pertence
porque nosso

não têm senão
a ilusão de um poder
efémero delegado

calçam sapatos luva
que nas mãos
melhor lhes ficariam

existem porque são
mandados para mandar

nada me custa
por esse mesmo motivo
mandá-los

sabem bem onde

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mãos de mar, de trabalho, estas

 

mãos de mar (39)


vou por aí

não conto os dias
foram são serão
sempre dias

conto risos e lágrimas
por chorar

os que se lavam em lágrimas
não imaginam como é
ficar sujo por falta delas

conto as mãos
as dadas as negadas
as que nunca e as que sempre
as do engano também

conto sonhos e desilusões
amigos que morreram
e outros que partiram
sem morrer

conto-me como coisa outra
um eu dentro de mim
revisito-me para me ver melhor
sinto que algures fui

hoje como sempre
vou por aí
sim amigo poeta
vou por aí

enquanto puder
vou por aí

vou por aí

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(por aí; ao pé do mar; num ano qualquer)