a negro


 

sobre os dias escrevo

não as comemorações

mas o espanto deste país

em desmoronamento

vítima

de um 1755 nacional provocado

pela ganância do capital

 

liberem-me dos liberais

senhores de gravatas

carros topos de gama

falocráticos símbolos

de uma suciedade

onde o homem é

euro-convertível

 

sobre os dias escrevo

a fome

o desemprego

as noites ao relento

os despejos

a fome

a fome

a fome

 

onde os jovens desta terra?

deles alguns oportunistas

sobem as escadas dos partidos

do chamado

arco do poder

e ei-los brilhantinamente

engravatados limpos por fora

à espera da próxima gamela

quanto aos mais

é vê-los desempregados ou

a comprar bilhete de partida

sem regresso

sem regresso

 

sobre os dias escrevo

a oportunidade que a crise trouxe

aos que detendo o capital

disporem de mão de obra

tão barata e tão qualificada

e aumentarem absurdamente

as suas absurdas fortunas

 

sobre os dias escrevo

o desprezo

pelos mais velhos

pela ética

pelo cumprimento das obrigações

pelos saberes

pelos valores

pelo respeito

pela cultura

 

sobre os dias escrevo

a negro

que negros são estes dias

a rua é nossa, a dívida não


 

coimbra 1 junho 2013

coimbra 1 junho 2013

 

em coimbra não fomos muitos

em coimbra a dos doutores

fomos os que de palco não carecem

habituados que estão a ser

mesmo quando ribaltas não há

 

em coimbra dos doutores

desalinhadamente

marchámos, cantámos, protestámos

fomos não só nós

mas aqueles que não se sabendo

ou julgando-se acima de

se ficaram por onde melhor se acharam

ou se resguardaram para multidões

a vir

 

em coimbra fomos poucos?

não

definitivamente não

fomos muitos

fomos os que desde sempre

sabem que os caminhos são duros

quando conquistados

mas valem a pena ser percorridos

por isso mesmo

 

em coimbra foram poucos

os que fizeram falta

aos muitos

que disseram bem alto:

 

a rua é nossa

a dívida não

 

em coimbra não fomos muitos

em coimbra a dos doutores

fomos os que de palco não carecem

habituados que estão a ser

mesmo quando ribaltas não há

 

em coimbra dos doutores

desalinhadamente

marchámos, cantámos, protestámos

fomos não só nós

mas aqueles que não se sabendo

ou julgando-se acima de

se ficaram por onde melhor se acharam

ou se resguardaram para multidões

a vir

 

em coimbra fomos poucos?

não

definitivamente não

fomos muitos

fomos os que desde sempre

sabem que os caminhos são duros

quando conquistados

mas valem a pena ser percorridos

por isso mesmo

 

em coimbra foram poucos

os que fizeram falta

aos muitos

que disseram bem alto:

 

a rua é nossa

a dívida não

 

 

ti antónio neto


ti antónio neto

ti antónio neto

 

 

foi tempo, ti antónio

mais um verão

em que demos os sorrisos

palavras poucas

mar tanto

peixe algum

 

foi tempo, ti antónio

cerra-se agora a névoa

sobre a praia

e só a memória tudo aclara

 

foi tempo, ti antónio

guardo ainda o abano de penas de gaivota

feito em dias de menos mar

pendurado na corda da roupa

à espera de quem passe e queira comprar

 

guardo mais, ti antónio

guardo um sorriso de criança

nuns olhos azuis

perdidos sempre mais além

 

além onde você agora

ti antónio

além ao pé de nós

 

 

(torreira; companha do marco; 2009)

pretensamente


marina pescadores_torreira

 

o pretenso não é

o que pensa

senão seria o que

não é

e isso seria muito bom

para ele

 

o pretenso tem

opinião sobre tudo

sobretudo sobre

o que não sabe

 

o pretenso não fala

para os outros

mas para se ouvir

ilude-se na pretensão

da auto audição

 

o pretenso

dito por extenso

é o por debaixo

do que ao de cima

pretende ser

 

o pretenso

é vítima onde se julga

herói

na ânsia de querer

o pretenso

corrói

 

o pretenso é

deixê-mo-lo ser

pretensamente