interesses


ahcravo_DSC_7090_pescador desp bico

 

 

interesso-me por tudo

o que para mim tem interesse

interessante seria se não

me interessasse

 

mas confesso

que há interesses inconfessáveis

os tais onde o interesse está escondido

como diz o povo

com o rabo de fora

 

interesses há-os muitos e de espécies várias

da cultura ao desporto dos sociais aos privados

do pelos outros ao por mim primeiro

 

interessante é ver como os interesses movem

montanhas

afastam rios dos leitos ou os levam

para os que escondidos ficam de vez visíveis

 

saber que interesses fazem mover cada ser humano

é tudo uma questão de tempo ou de saber esperar

 

queria falar-vos da pesca dos pescadores e do peixe

mas será que isso agora tem interesse?

 

é a vida, cravo


agostinho trabalhito

agostinho trabalhito

 

(para o meu amigo agostinho trabalhito)

 

 

sei que não me vais ler

a internet não faz parte

das artes de pesca

apesar de o mar já ter entrado

no meu computador

 

é a vida, cravo

quando dos teus irmãos

 

mas as palavras são só isso

uma forma de tentarmos dizer

o que nunca pode ser mais que sentimento

aproximação ao indizível

ínfimas

tão pouco

para tanto

 

quanto te aperta a palavra

abraço?

 

escrevo lágrimas de olhos secos

e tu

tu

sente-las correr pela face

 

é a vida, cravo

é a vida

é ….

 

liberdade ?


 

reflecte bem

reflecte bem

 

digo livre

e digo-te secreta a arma

secreta serena e nossa

sim nossa

 

tens dúvida?

então e os nossos interesses comuns

esqueces-te do que me deves

das nossas relações

do que é viveres aqui e eu

e os outros como eu mesmo se

 

secreta

sim

não digas a ninguém

que não votas em mim

muito menos não digas que és

ou assines por outro

 

olha que eu

posso ainda

poderei talvez

e tu

na dúvida

porque arriscas?

 

livre?

sim

mas não penses

que já de mim

 

secretamente livre

é assim

meditação à beira ria (1)


 

não

não quero saber nada do que sei

esquecer tudo o que aprendi

ser eu apenas

eu e

estar aqui

 

ignorar se o tempo é eterno

se choverá ou fará sol ainda

para além de

 

que tudo se reduza ao momento

mesmo que não se perpetue

mas seja o instante

e o que for

quando tiver de ser

seja

 

não há barcos a navegar na ria

também eu tenho marés

 

 

cebola


 

cebola, o redeiro da companha

cebola, o redeiro da companha

 

pega-se a alcunha à pele

perde-se o nome por entre

documentos que atestam

o ser ele ainda um outro

que é também aquele

porque é conhecido

na praia

 

ir até onde tudo começou

descobrir o porquê

a história por detrás

do ser esse o nome porque

és conhecido

porque te chamei desde sempre

é matéria para outra safra

 

digo cebola

e há um sorriso poisado numa bicicleta

que me responde

isso sei

 

(torrira; companha do marco; 2010)

 

hoje vi o tempo


 

 

hoje vi o tempo

sentado à mesa do café

anos sobre anos somados

e eu ali

quem sabe um dia

um outro tempo

por outros visto

 

parei de ler

impossível continuar

levantei-me

comigo o livro

as palavras sobre o papel

o prazer

 

caminhei pela beira ria

onde o tempo

de outro modo se lia

registei-o

 

quem sabe

num tempo outro

alguém