falo das aves


falarei ainda das aves
quando te disser
que mais belas não vi

estranhos barcos estes
de tão belos
que meninas mulheres são
desta laguna
onde o mar se aconchega
para ser criança

as palavras não cabem
no esplendor das velas
só o silêncio nelas se acolhe
para ser mais nosso
deslumbrante de tanto

falo ainda das aves
 
amanhã
em bando voarão mais uma vez
até quando?

(regata da ria; 2011)

urge cantar


 

havia

na casa velha

uma janela por onde a lua

 

havia

na casa velha

uma porta por onde o sol

 

havia

na casa velha

alguém que guardava a luz

na cegueira de não deixar ver

 

vieram

da casa velha

com aromas gastos

sabores amargos

bolorentas palavras

 

sinistra gente esta

que aqui chegou com mansos passos

de coelho ditos

 

urge fazer a ouvir

a canção que para outros feita foi

ei-los que partem…”

sorriremos então

partir


barco de mar s. josé_praia de mira

barco de mar s. josé_praia de mira

 

partir, álvaro

partir sempre que destino

haverá onde

uma praia um areal imenso

partir sem saber

 

um cais não é casa

é porta aberta

e eu vou sair

 

carta, álvaro

nem de prego quero

rotas muitas

destinos tantos

mar por todo o lado

isso sim

 

partir, álvaro

pura e simplesmente

partir

soltar amarras e

o que for

não há-de vir

 

um homem só morre

quando desistir

 

o meu país à deriva


 

 

chegado, murtosa

o estado do concelho

é deplorável

da freguesia os fregueses

se queixam

de já a não terem

 

o distrito anda sem governo

e o governo à borda d’água

desejamos naufrague súbito

 

entre pastéis e palhaços

em belém

a torre desespera de não

ser nau

 

é tempo de partir

e os que ficam

que partam tudo