
adormecer assim sem pressas de haver amanhã ignorante de mim deixar por momentos esta coisa de existir é sonho que invento só para te dizer o silêncio que é este não estares estando
(torreira; 2010)
no vulgar descrever das coisas
cai a noite
uma guitarra celebra paredes
enquanto na lama da ria
uma mulher morde a sobrevivência
na apanha de amêijoas onde já ninguém
a miséria mais dura
convive lado a lado com a beleza da música
criando uma atmosfera de irrealidade insuportável
no vulgar descrever das coisas
cai a noite
quisera saber como acolhê-la
não te peço que entendas
sequer que gostes
daquilo que escrevo
como
se nem eu
por vezes?
sinto apenas
por isso escrevo
tenho de escrever
porquê?
porque tenho
não me questiones
sente apenas
ou não sintas
que sei eu de ti?
as palavras existem
para além de mim
sou nelas
um outro e o mesmo
não peço que me entendam
não peço nada
limito-me a ser
vêm de longe
de onde a fronteira entre luz
e sombra
era ainda o princípio de tudo
de ti de mim de nós
como se parados no tempo
são o próprio tempo
esperando ser mais tempo ainda
vê-los é entrar em casa
sem nunca ter saído
as manhãs são aqui infinitas
têm a dimensão da memória
aconchegada no regaço
da mãe-terra
vêm de longe
permanecerão para sempre
são a minha gente
para ver:
parceria jorge bacelar (vídeo e fotos)/ahcravo (palavras)
é irrevogável
cristo desceu mesmo à terra
os vendilhões do templo
reunidos em plenário
depois de concluírem que nada
mais tinham para vender
decidiram
venderem-se a si próprios
e aos seus
(que não são deles mas como tal foram tratados)
é irrevogável
cristo desceu à terra
pelo menos a esta
onde tudo é possível
mesmo o inimaginável
em verdade vos digo
que a mesma anda por aí perdida