vem aprender a ria


raul bastos
um urso de peluche
na bica da proa da bateira
a coluna sofrida de tanto
um sorriso e um abraço
enormes

pescará ainda
enquanto o corpo
que outra arte não sabe
reparte o amor entre os seus
e a ria

 
por vezes queixa-se
mas de dores
reclama da balança
do intermediário
do roubo descarado do pão
transformado em carros de luxo

a democracia
ainda não chegou
à ria
aqui a dita dura
é ela que decide o quê
quando e por quanto

são estes os homens livres
aos olhos de quem chega
admira a beleza da paisagem
regista-a e divulga
mas é de lama
que se trata aqui

anda
vem aprender a ria

(torreira; 2008)

alfredo amaral


"sou feio mas sou moderno"
alfredo amaral
aqui te digo amigo
que me orgulho de te ter como
saber a tua história
o que foste  o que és
de pequenino aos pés da tua mãe
a ver trabalhar o mar
agora já homem
a dar duro no pão

o mar que ela agora não vê
a tua mãe alfredo
a ana
é agora tua filha
onde o mar é teu irmão
e pai

saber como és mais que tu
sabendo-te
sorrindo
jamais exigindo
quem conhecendo-te
te poderá dizer não?

que todos os filhos
sejam como tu
sem serem como tu
é desejo que fica
é palavra que deixo
é desejo

abraço-te
e sorrio
porque tu és feio
mas és moderno

quando há tantos modernos
horrorosos

(torreira; 2011)

o meu país está doente


 

 

o meu país está

doente

sofre de carros de luxo

e de pés descalços

de digestões difíceis

e de falta de pão na mesa

 

o meu país

sofre de euro

receitaram-lhe troika

sofre ainda mais

 

o meu país

não é um mapa

na geografia do mundo

uma selecção no europeu

um jardim à beira mar

implantado

 

o meu país

é a sua gente

e é tão diversa a gente

do meu país

 

o meu país

são muitos dentro da geografia

a bandeira não cobre todos

quantos fariam dela cobertor?

 

(por)tu(gal)

trato-te por tu

andas descalço

desempregado

com reformas de miséria

com fome

revoltado e conformado

 

portugal

estás mesmo muito mal

portugal

tu és o meu país

mas escuta

não foi assim que te quis

 

portugal

porque é que o senhor presidente

não está também doente?

o poema


moliceiro zé rito_torreira
o poema
nasce devagar
sem pressas
de ser
paciente
vai juntando palavras
dando colorido
aos dias que habita

o poema
é uma criança ainda
quando brinca na brancura
do papel
e faz sorrir quem o lê

escuta
fala-se
entrega-se
procura-se em

isso lhe basta
e já foi

(torreira)

para além de


vejo-me ainda no olhar
o outro
nas palavras
nos silêncios
descubro-me e descubro

escuto-me
ouvindo
eu sou já o
cresci em mim
ao sê-lo também

nos que me rodeiam
sou
com o prazer
de me ser
não sei de solidão
somos muitos em mim

seremos ainda
quando um não for
assim a memória de um tempo
para além de

(torreira)

impublicável


o mar a meus pés

um dia ainda

vou escrever um poema

a publicar

nesse dia duvidem

que seja eu

outro por mim

certamente o escreveu

 

que a mim me basta

o espaço para que as palavras voem

e não se estatelem em folhas

de tiragem reduzida

de um autor desconhecido

mas

 

publicado

que a expensas próprias

vai ajudando a subsistência de editoras

de futuros ignorados

 

um dia vou escrever

um poema impublicável

mais um