abate do olá s. paio em 3 de agosto de 2012


casco roto, barco morto?

acabou-se o mar

o meu tempo de ser

 

naufragado que fui

repouso na areia

para onde antes sorria

lá de bem longe

no regresso de mais um lanço

 

não parto mais

arribei para sempre

não mais o “bota!”

a ressoar por sobre as ondas

 

não mais o voar

e cair no fundo na vaga

não mais o deslizar

sem saber de terra

sou agora

o ter sido

 

 

acabou-se o mar

que eu sou eu agora?

biblioteca particular fernando pessoa


Os livros da Biblioteca Particular de Fernando Pessoa estão disponíveis gratuitamente online desde ontem à tarde no site da Casa Fernando Pessoa.
Até agora, só uma visita à Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, permitia consultar este acervo que é “riquíssimo”, mas com o site, bilingue (português e inglês, e disponível em ( http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt ) em qualquer lugar do mundo, com uma ligação à Internet é possível consultar, página a página, os cerca de 1140 volumes da biblioteca, mais as anotações – incluindo poemas – que Fernando Pessoa foi fazendo nas páginas dos livros.

é delas o verão


 

apanha de ameijoa à cabrita baixa

 

como se formigas
mergulham os corpos
na ria
as ancas em movimentos
rítmicos arrastam as cabritas
carregam ameijoa

os joelhos
a coluna
os braços
os ombros
envelhecem
endurecem
os joelhos esmagadas cartilagens

as formigas
são gente
as cigarras
assistem em terra ao espectáculo
esfregando as mãos
na multiplicação
dos lucros

com o suor dos outros
ergueram o império
é delas o verão

(ria de aveiro, torreira)

é esta a gente


vitor caravela (falecido)_torreira, 2009

nasceram virados
ao mar
dele receberam
o primeiro embalo
a primeira prenda:
um peixe

todos os caminhos
são o mesmo caminho
é cega a arte que lhes dá
o pão
vai e não sabe se
cheia vazia grande miúdo

já poucos restam
já poucos sabem
já poucos resistem
partem para o alto
bacalhau palmeta pescada

chile terra nova áfrica

longes de onde se volta
para continuar

é esta a gente
que querem matar

vou com os barcos


ergo as palavras
sobre pedras
duras afiadas

as da calçada dos dias
que percorro

procuro o vento
que as leve
onde areias sorrisos
corpos desejos carícias

e as deixe cair
sonoras brutas
nos lagos
podres das avenidas

até lá
continuarei ainda
a estar vivo e a falar
desta coisa coisa chamada
fome de justiça
e amor às coisas da terra

assim me tomem
ou rasguem
vou com os barcos

(cais do bico; murtosa; 2011)

um homem só?


 

popola

 

um barco
o silêncio da praia
deitado na areia
escuta o suave
navegar das nuvens

um homem só
espera
não se sabe se amanhã
hoje
será o dia
o ultimo
o primeiro

um homem só
abandonado no seu país
pelos que nele mandam
e mandaram
dizendo representá-lo
e mandam
ainda mais

não é
um homem só
ou será?

todos somos
o homem só
ou negar-nos-emos
como povo

(torreira, 2008; à memória do arrais zé murta)

pescadores da torreira (cabrita alta)


 

joão manuel brandão

 

quantos anos tem um corpo?

 

ao pesado fardo

do ganha pão

os corpos curvam-se quebram-se

rápido se desgastam

 

retesados músculos

em esgar de dor

os rostos

são facas que cortam

quem os vê

 

cedo amanhecem os dias

e a ser os anos

ninguém os canta

poucos os contam

vivem no silêncio

aí permanecendo até que

 

alguns os exploram e exportam

o suor e o sangue

o corpo

feito mercadoria

lucrativa

vendida a estranhas gentes

 

são os pescadores

da torreira

o nosso mar


(torreira; 2007)

cumpriram-se os dias
plenos de sal
séculos escritos sobre as ondas
um povo à beira mar
se fez e aí cresceu

aqui todo o destino tem sabor a espuma
escamas recobrem os homens
mulheres outras estas
as que o mar fez
 
restam poucos
restam muitos
restam os que são e sabem ser
pescadores
apanhados
nas malhas de uma europa
que não a sua
 
afogar-se-ão
ou não?

quem se faz ao mar e o vence
será que vai morrer a ver o mar crescer
sem o poder galgar?
 
falo de homens
não de burocratas
falo do nosso mar

quem vence o mar vence sempre