
viver é dizer fiz sobreviver porque não fiz eu como o poeta confesso que tenho vivido
(alua nasce na ria; torreira; 2008)

(torreira; 2009)
hoje não te escrevo deixo que inventes as palavras que te diria se nos déssemos por dentro do silêncio onde somos peixes e aves, flores e gazelas hoje não te escrevo somos só
sinto-me sem mim. de tão só me não encontro. onde parará quem sou ? quem fui onde ficou ?
vagueio entre o eu e o não-eu. Entre estar aqui ou noutro sítio, qual a diferença ? a única geografia possível está em mim, é aí que me devo sentir habitante de .
a tudo me sinto aqui paralelo. acaso algum dia me intersectarei algures ?
dêem-me um código postal, atribuam-me uma classificação nos vossos catálogos.
e que fazer da memória, do engenho de pensar ainda ? não caibo no vosso mundo porque rompi as cadeias que me tolhiam os olhos, mas agora que vejo demais, quem me dera cego.
saravá meu irmão porque hoje
faz 30 anos que te foste sem teres partido
mas sabes:
tem muita gente bebendo no bar
porque hoje é sábado
e um pato que passa em seu bambolear
porque hoje é sábado
a garota de ipanema continua linda
porque hoje é sábado
e maria bethânia é sempre bem vinda
porque hoje é sábado
tem um operário em construção
porque hoje é sábado
e toquinho pegou em seu violão
porque hoje é sábado
tem um poeta sentado à mesa
porque hoje é sábado
e uma festa feita de surpresa
porque hoje é sábado
tem uma garrafa de whisky e um copo cheio
porque hoje é sábado
há alegria e há receio
porque hoje é sábado
há uma voz rouca que canta
porque hoje é sábado
e nada no mundo já nos espanta
porque hoje é sábado
há uma moça morta em miramar
porque hoje é sábado
e um aniversário a comemorar
porque hoje é sábado
há um homem que não morrerá jamais
és tu meu poeta vinicius de moraes
porque hoje é sábado
há um poema que atravessa o mar
e há ondas que te querem abraçar
porque hoje é sábado
saravá meu irmão
porque hoje é sempre o teu sábado
(visita: http://www.tocadovinicius.com.br/)