os moliceiros têm vela (83)


da aprendizagem

ahcravo_DSC_2046 bw
o poeta menor
sentou-se na soleira
do poeta maior

na pedra fria da porta
colheu as pegadas do mestre

procurou palavras sentires
saberes da escrita
que admirava e não atingia

o poeta menor
levantou-se da soleira
do poeta maior
e tinha o rabo gelado

nada mais aprendera
que a frieza da pedra

ahcravo_DSC_2046

(ria de aveiro; regata da ria; 2010)

os moliceiros têm vela (81)


dia da poesia

KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

alguns sabiam as letras
de ouvido
o nome seriam poucos
a escrevê-lo

foram poetas e partiram
sem cadernos
com as mãos e a vontade
de vingar
onde oportunidades houvesse

homens e mulheres
crianças ainda
calejados de fome
com sede de futuro

escreveram o nome
da terra negada
na geografia do mundo

é deles o poema sem palavras
escrito em línguas desconhecidas
que fizeram suas

é deles o dia
são eles a poesia

KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA(murtosa; regata do bico; 2007)

os moliceiros têm vela (78)


do sorriso

no moliceiro "dos netos" o ti abílio e o ré rebelo (seu pupilo)

no moliceiro “dos netos” o ti abílio e o zé rebelo (seu pupilo), a chegarem a aveiro

solares os dias em que sorris
renascido de um tempo parado

és-me de novo não sei por
quanto tempo mais

sou inteiro por instantes

mestre e pupilo, em lição de velejar

mestre e pupilo, em lição de velejar

(ria de aveiro; regata da ria; 2013)

no moliceiro “dos netos”, o ti abílio e o zé rebelo