à memória do ti borras – nascido manuel maria da silva, patacas


(torreira; anos 90; a espera para ver e comprar)

virado para o mar
olhando o longe

recordo o ti borras
pescador de outros tempos
do barcos de quatro remos
de tantas juntas
que não conhecia mar que o impedisse
de trabalhar

se o mar fosse de vinho
ia a pé até à américa
dizia

recordo o ti borras
pescador e senhor dos mares
recordo e não vejo lembrança dele
ficou um beco com o seu nome
que se apagará no tempo

que começa a apagar-se

o tempo não pode ser deixado a si próprio
ainda não atingiu a maior idade

alberto estrela (aos amigos que partiram)


(alberto estrela; torreira; 2006)

boa noite estrela

soube
pelo teu filho
você deve conhecer o meu pai
o estrela

a frase continua a martelar-me
a cabeça

que tinhas partido
ninguém sabe para onde
mas todos sabem que não voltas

sabes estrela
a vida é feita de encontros
e desencontros
nós há muito que não nos encontrávamos

vinha e não te via
e pensava
está para o mar
era normal

e vai continuar a ser normal
porque para mim estrela
tu estás no mar
e é por isso que não nos encontramos

um abraço do teu amigo

cravo

óscar miguel


o barco vai partir
as gaivotas
barcos de outros ares
esperam peixe na rede
sobras a rolar nas ondas

o barco vai partir
enfrentar as ondas
correr atrás do vento
voar atrás das nuvens
planar sobre as águas

sorte se
encontrar um cardume perdido
e o transformar em refeição

o barco vai partir
partimos com ele ?

só para ver
como a vida no mar é dura

(torreira; anos 90)

o óscar miguel ainda ia ao mar. hoje nada mais resta que a memória fotográfica. o desleixo com o património e a sua preservação, fizeram com que do último barco de mar que trabalhou com tracção animal nada mais reste

como é belo o fim do dia ou o que tu não viste quando olhaste


arrumadas as artes
o barco adormece suavemente
nos braços da areia

uma gaivota
perde-se no longe antes
de lhe vir fazer companhia

na tasca os homens convivem
recordam histórias antigas
jogam às cartas e ao dominó
entre dois copos de três
três copos, quantos
a noite é longa

na barraca
na casa económica
aguardam a mulher e os filhos
é ela que guarda a casa
que garante que este barco não se afunda

como é belo o fim do dia

(torreira; 2008)

pelo na venta


ermelinda bitaolra

(torreira; anos 90; do meu livro “quando o mar trabalha)

tem pelo na venta
dizem

é duro viver aqui
arrancar com as minhas mãos
o pão ao mar
ser como o meu homem
sem favor de ninguém

o sal queima e endurece a pele
envelheço com a fome de inverno que o tinto aquece

tenho pelo na venta
sim
quem o quiser negar
que venha ver
trabalhar o mar