xávega_do largar (II)


" e o barco vai de partida"

longe vão os os tempos em que o francês françois dennis escrevia: ” estranha terra esta onde os bois vão lavrar o mar” (citado por raul brandão, in “os pescadores”).

onde hoje os bois na agricultura? então, porquê no mar?

os tempos trazem consigo a mudança e é neles que vivemos. hoje o trabalho pesado que antes era feito por juntas de bois, é coisa de tractores, frequentemente comprados em segunda mão no ribatejo ou além tejo.

e sim, os tractores vão lavrar o mar, ei-los.

o que poucos sabem é que para trabalharem na areia e no mar, os pneus não são cheios com ar, mas sim com água.

o tractor empurra o barco até onde puder, garantindo o máximo de firmeza, segurança, ao largar, por ventura até o barco ganhar calado e o motor poder ser accionado.

(torreira; companha do murta; 2006)

o caminho das ondas


maria de fátima
 
curva-se o mar
à bravura dos homens
quebram-se sobre
o barco as ondas
e passam
 
seguem os homens
o seu destino
indiferentes
sabem que ainda não
 
um dia
cheios de tanto terem sido
será o último
ficará o vazio de não ser
alojado no não ir
 
o homem é
onde o mar também
 
(torreira; companha do marco; 2010)

xávega_do largar (I)


olá sampaio com o arrais zé murta na ré
 
neste registo estão perfeitamente visíveis os três “fixes” que seguram o barco de mar na preparação para o largar:
 
– a regeira: amarrada ao golfião de estibordo da bica da proa
– a muleta apoiada na peça metálica fixa no exterior da bica da ré
– o reçoeiro, enrolado na bica da ré e que o arrais vai soltando ou apertando consoante a intenção.
 
note-se que ambas as cordas estão direccionadas para norte, de onde vêm as correntes dominantes, por forma a manter o barco perpendicular à costa e às vagas. caso o barco se atravessasse poderia virar de bordo, o que é um dos acidentes mais frequentes.
 
(torreira; companha do murta; 2006)
 
 

tempo de ser pescador


barca s. josé_praia de mira_2009

é tempo de mar
será tempo de peixe
se peixe houver

é tempo de homens
tempo de ser
mesmo que peixe
não venha
mesmo que o saco
nada tenha

têm os homens
o saber que vão
sem saberem o quanto são
pois é deles natural
serem-no assim

é tempo de mar
é tempo de ser
pescador

(praia de mira; companha do zé monteiro)

quando o mar trabalha na torreira


ti tiago branco (falecido)

vem mar
traz contigo
as marés as ondas

venham as gaivotas
na areia medrosas de tanta fúria
e deixem
pegadas que o vento apagará

juntos
caminharemos ao encontro
do amanhã

lá onde eu não estarei
falarão de mim
os murmúrios do vento
o rebentar das ondas

e
quem sabe
talvez os homens

quando o mar trabalha na torreira


susana_neta manel matos

atentos olhos
escutam movimentos

esperam a voz
a ordem o mando

tensas as cordas
fechado o cerco
as redes iniciarão
o regresso

maestro desta música
o arrais olha o mar
sente as correntes
no deslizar das bóias

na sinfonia das redes
os andamentos
é o mar que os dita
o arrais quem os traduz

assim aprendi
música
neste areal de luz

(torreira; século XX)

xávega – o recolher do peixe


KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

o retirar o peixe do saco com recurso a “xalavares” é o primeiro passo dos últimos de um lanço.

a ele segue-se a escolha, a lavagem e o enchimento das caixas, que serão negociadas com o intermediário e/ou levadas à lota.

enganam-se aquele que pensam que o pescador ganha bem porque o peixe é caro. entre a venda ao intermediário e a venda ao público o preço pode ser multiplicado por mais de 10 vezes.

enquanto os pescadores não se organizarem e forem eles próprios a fazer a venda directa na lota, com exclusão de intermediários, ganham muito os que fazem pouco e ganham pouco os que trabalham muito.

mas isto não passa de um sonho, no que se refere à pesca artesanal. nunca houve organização e não é agora, quando são tão poucos, que vai haver. a subsistência da xávega, não é um milagre, mas é um mistério alimentado com muito suor e reformados.

(torreira; companha do murta; 2006)

 

 

súbito


de dentro

ninguém é tão forte
quanto julga
ninguém é tão fraco
quanto parece

olha-te
antes
de veres

……

os rios
correm
para o mar

só eu
corro
sem destino

……

magoa-te

hoje
amanhã
serás imune

……

os dias
não pesam
tu neles

…..

acorda
comigo
não durmas

…..

quando
acordei
não eras tu

…..

o teu rosto
as minhas mãos
um poema

…..

eu sou
tu és
nós seremos?

…………

o óbvio
é
um espanto

quando o mar trabalha na torreira_marine


                                          (torreira; anos 90)
olho o peixe
salta na rede
estrebuchando na agonia do sufoco

também isto devo aprender
a linguagem da morte
não me será jamais estranha

gostaria de brincar
com aqueles peixes prateados
as minhas bonecas de menina
vivas

mas
este não é lugar de brincar

no meu rosto
a mulher que deste tamanho já sou
contempla o trabalho que a rede encerra
em que participei
com as migalhas que tinha para dar

como são grandes estes dias!
com eles cresço e fico maior
mulher do mar


(do meu livro "quando o mar trabalha")