crónicas da xávega (614)


escolho escolher

escolho o que como
o que bebo sei o que posso
onde vou e quando

eu na minha inteireza sou
rocha antiga firme
em convicções e causas

não conheço quem
possa escolher um povo
que não o escolha

é pescadinha de rabo
na boca e isso
só com arroz de tomate

(xávega; zorra carregada com barco em fundo; torreira; 2013)

crónicas da xávega (613)


cavar fundo
revolver a terra

cavar mais fundo
abrir pedras

na raiz da palavra
o coração do poeta

saboreio o fruto
digo o poema

(xávega; rede seca carregada a preceito; o voo do saco; torreira; 2013)

nota: depois de ter secado, estendida no areal, a rede é colocada sobre a zorra – estrado de tábuas pregadas sobre toros, com uma corda para poder ser traccionada – com a seguinte sequência : mão de barca; saco; reçoeiro (terminologia da torreira)

crónicas da xávega (612)


a palavra escrita digo
devagar soletro
a emoção com os dedos

cego caminho pelas letras
repito-me repetes-me
eu sou as minhas palavras

pensava que o sabias
que me ouvias e era gravura
antiga em rocha dura
o que te dizia

sabes não há verdades
eternas nem mentiras que muito
durem o sol hoje é lá fora

não o será sempre
que outras estações virão

(xávega; aparelhar; torreira; 2013)

crónicas da xávega (608)


este é o meu tempo
o meu mundo é aqui
se quero ser é aqui e agora

recuso-me a ficar sentado
à soleira da porta a falar
com as árvores e as flores
ou contigo amor que invento
costas viradas ao coração da casa
não ouvindo não vendo
a desumanidade dentro dela

é aqui e agora
com as parcas armas que tenho
palavras palavras tão pobres
mas que mordem ferem cortam
denunciam

é aqui e agora
ou amanhã não sei onde
terei vergonha de não ter sido

por isso escrevo
porque a realidade ultrapassa
é o genocídio em gaza

(xávega; dar o porfio; torreira; 2011)