crónicas da xávega (58)


crescer para o mar

o arrais marco, homem dos sete ofícios

o arrais marco, homem dos sete ofícios

ajoelha-se o homem para o trabalho
minucioso do tecer das malhas

arte secular aprendida no areal
onde por vezes o pão chega prateado
espalhando sorrisos e esperança
que nem sempre a lota contempla

ajoelha-se o homem e pede ao senhor
pão que baste para tão sofrido suor

erguer-se-á o homem e crescerá
para o mar

o arrais marco silva

o arrais marco silva

(torreira; companha do marco; 2013)

postais da ria (78)


sonhei um dia ser ave

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vieram depois os que sabiam
das palavras exactas
dos nomes das coisas e falaram
ensinaram-me a ver
as cores e o por dentro delas

escutei-os no recato da margem

vi como as aves
reescreviam com as asas
na superfície das águas
a palavra voo

sonhei um dia ser ave

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(ria de aveiro; torreira)

os moliceiros têm vela (88)


é

o  moliceiro a. rendeiro do ti zé rebeço é o primeiro

o moliceiro a. rendeiro do ti zé rebeço é o primeiro

recuso as palavras redondas
nascidas
de bocas onde muitas línguas

só conheço o caminho agreste
parco de sombras
linha recta entre hoje e o devir

prefiro a fresca água das fontes
às bebidas finas das mesas grandes
onde banquete é fome de muitos

recuso os cemitérios de vivos
não é fácil nem difícil
é

quem disse que ganhar é fácil?

quem disse que ganhar é fácil?

(ria de aveiro; regata da ria; 2014)