que sou eu aqui?
espantam-me os dias
por onde o corpo
sou o meu tempo
e dói-me que o seja
como deixo que o façam
que sou eu aqui?
espantam-me os dias
por serem de luz
para tão poucos
(ria de aveiro; torreira)
postal de longe
quisera não gostar de ti
de te sentir
tão por dentro de mim
como se eu
quisera não te saber
o passado
preso no meu nome
família de
quisera não gostar de ti
assistir
de olhos secos e mudo
cúmplice
moderno sobrevivente
quisera não me deixasses
assim sem terra
nem raízes nem história
deserdado de mim
se é este o teu futuro
seja
mas não contes comigo
nele
antes não te ver mais
para te ofertar como foste
(ria de aveiro; regata da ria; 2010)
desconto-me
conto comigo e poucos mais
desconto muitos com que contava
por ter contado mal ao contá-los
conto ainda com o suficiente
para fazer o que na vida me resta
merecer ser feito no tempo que tenho
conto com o tempo e não sei se
conto comigo e desconfio se ao fazer tal
será tão seguro como contar com os outros
que de um corpo dependo e esse tal como
muitos com que contava é cada dia mais
de desconfiar
começo a descontar-me
(torreira; marina dos pescadores)
o insuportável peso da luz
o que nos separa é o essencial
isso só se torna evidente se
sobre o branco inscrevermos
o traço exacto das fronteiras
onde os desejos se dividem
fundamental reduzir o acessório
à sua verdadeira dimensão
dispensável
a luz tudo atravessa para se
fazer dia
(torreira; regata do s.paio; 2010)