
todo o tempo tem o seu tempo até o ser chuva de sol tem o seu
(buarcos)
um dia ainda
vou escrever um poema
a publicar
nesse dia duvidem
que seja eu
outro por mim
certamente o escreveu
que a mim me basta
o espaço para que as palavras voem
e não se estatelem em folhas
de tiragem reduzida
de um autor desconhecido
mas
publicado
que a expensas próprias
vai ajudando a subsistência de editoras
de futuros ignorados
um dia vou escrever
um poema impublicável
mais um
Editor: Instituto Politécnico de Santarém
Coordenação: Gabinete coordenador do projecto
Ano 5; N.º 183; Periodicidade média semanal; ISSN:2182-5297; [N.9]
Integrando a 49.ª Feira Nacional de Agricultura, 59.ª Feira do Ribatejo, o CNEMA – Centro Nacional de Exposições e Mercados Agrícolas -, S.A. foi palco do 1º Fórum Ibérico do Tejo e do 3º Congresso Nacional da Cultura Avieira.
Com manifestações culturais paralelas decorrendo em simultâneo – do folclore à pintura, à fotografia, à arqueologia e às embarcações Avieiras e da Vieira de Leiria -, o Tejo foi a centralidade que congregou, durante dois dias, académicos e estudiosos, portugueses, castelhanos e galegos e uma das comunidades mais identitárias para a cultura das gentes taganas – a Avieira.
Destes eventos vos damos conta na presente Folha Informativa.
O gabinete de coordenação
(Projecto de candidatura da cultura Avieira a património nacional imaterial e da Unesco)
FOLHA Nº16-2012_1º Fórum Ibérico_3º Congresso da Cultura Avieira
estou muito longe de tudo muito perto de mim encho-me de mar e não há palavras que digam sequer parte do que sinto quem sou é outro sendo o mesmo que fui mas muito maior que eu lavei todo o meu corpo no mar limpei-me das impurezas urbanas reencontrei o vernáculo dos homens que não viram as costas às ondas pesco neles o pão para estas palavras poucas e ofereço-vos do muito que sou agora o tanto que me ofertaram estou muito longe de tudo mais eu que nunca
(torreira; 14 de junho de 2012)
a nossa gente
come da terra os frutos
mais amargos
regados a suor
caminha sobre as águas
como se terra fosse
a nossa gente
partiu para onde onde não queria
sempre em busca
do que na terra não havia
avaro o mar negava
o que também a ria
falo do pão
a nossa gente
é anfíbia e sobrevive
no segredo dos dias
por onde passam
raros
raios de sol
trazidos de outros países
a nossa gente
cresceu fora da terra mãe
onde vem morrer
as saudades de aqui
não ter vivido
a nossa gente
é nossa
mesmo se esquecida
é nossa
mesmo se maltratada
é nossa
a nossa gente
é gente
recuso outro tempo que não o meu sou o agora e o aqui na inquietação de querer melhor sou a pedra no vidro o prego no sapato não mudo de passeio mudam não ponho máscaras sou-me irritantemente por vezes sei e nunca é demais não procuro encontro reencontro vomito quisera ser o grito
talvez de palavras se faça o discurso mas com actos se concretiza assim se faz o homem tragam-me um diz-me que terra é esta onde já poucos morrem porque menos nascem? terra de partida terra em que não há pobres dizem porque misérias muitas os moliceiros esguios elegantes fermosos os mais belos barcos do mundo não eram barcos eram casa ave pão na mesa que povo é este que tem de buscar as suas memórias em arquivos de museus que não os seus que povo é este que tão fraca gente à frente tem vou ainda ao meu encontro no desencontro de estar aqui
(torreira e dois moliceiros que já não existem – nem o dono)
O Pardilhoense é um barco moliceiro construído no ano de 1996, em Pardilhó, em casa do anterior proprietário, Sr. Carlos Vilar. Tem um comprimento de 14,70 metros e uma boca de 2,54 metros. Foi adquirido em 22 Dezembro de 2010 pelo Moliceiro da Costa Nova. Reconstruido pelo mestre Zé Rito em 2011, com madeira de pinheiro bravo para o tabuado e madeira de pinheiro manso para as cavernas. Foi lançado na água nos finais de Junho desse mesmo ano. A madeira de pinheiro bravo veio dos pinhais de São Vicente Pereira, e o pinheiro manso do pinhal de Leiria. Foram respeitadas as medidas do barco anterior e algumas cavernas: o restante foi totalmente feito de novo. Está registado no turismo de Portugal para passeios turísticos, tendo licença para transportar 21 pessoas, incluindo os 2 tripulantes. É o moliceiro mais moderno a operar na ria e um dos poucos a navegar à vela nos passeios turísticos. A sua vela maior tem cerca 80m2. Também já participou em inúmeras regatas. Foi recentemente pintado pelo artista Zé Manel. Os painéis são alterados regularmente com temas novos, para poder participar nos concursos de painéis que ocorrem em Aveiro e na Murtosa (Festa do São Paio). Tenta-se ser o mais criativo e original possível.
(texto de jorge bacelar)
mesmo ao lado um moliceiro em terra:
enquanto um é pintado para navegar outro procura novo dono!
é assim na terra que se diz “pátria do moliceiro”.
afinal, património é investimento na memória ou propaganda balofa?
para os edis da murtosa é propaganda: por todo o lado se pode ler a frase emblemática, mas nada se faz para que os moliceiros continuem a navegar na ria. que apoios dá a câmara municipal aos donos dos últimos moliceiros, para os manterem a navegar? é verdade que a câmara tem um moliceiro, mas que faz com ele?
desditosos filhos que tal pátria tendes!
todos os anos moliceiros são vendidos para fora do concelho, por falta de capacidade financeira dos resistentes para suportar os encargos com a sua manutenção. todos os anos os responsáveis pelo município a isto assistem e continuam a usar, sem qualquer vergonha, a frase ” murtosa pátria dos moliceiros”.
e é verdade, a murtosa é de facto a pátria, os donos da casa é que puseram um letreiro à porta a dizer vende-se.
assim vamos por cá

o artista traça meticulosamente as linhas que nos trazem o rosto a memória das palavras simples das mensagens complexas dir-te-ei um livro vogando sobre águas mansas levando cultura na proa pandas as velas cheias de poemas o moliceiro é pessoa
(o pintor josé manuel oliveira a pintar um dos painéis da proa do moliceiro “pardilhoense”)
hoje não há governo
nem oposição
empregado ou patrão
hoje há selecção
hoje não há desempregados
nem mesas sem pão
hoje é dia de sim
amanhã pode ser dia de não
mas hoje
hoje há selecção
um carro parou de repente
impedindo a circulação
aí sim
houve discussão
tudo porque
hoje há selecção
por debaixo da caixa
da televisão
uma voz sibilina canta baixinho
“lá vamos cantando e rindo”
ainda há quem se lembre da canção?
pois é
é bom que se lembre
porque em país de futebóis muitos
de défices, de desemprego, de fome
de corrupção
hoje tudo se esquece
porque
hoje há selecção