duro, gretado, gasto
rasgado de histórias
desafiante porte
ao mar afoitos
no quebrar de ondas
o bojo da barca
parece voar
é assim esta gente
que mata a fome
quando come do mar
sinto-me insegura
o vidro é frágil
não ouves a voz
das árvores
a correr no vento?
luzes, árvores, grades
feéricos instantes retirados
do interior da memória
sobre os carris
o comboio espera o momento de
há uma máquina porém
que não pára
pensas sempre
vício de estar ainda vivo
é tudo muito difuso
tu próprio começas a desconhecer-te
não penses, não fales
existe e caminha em direcção
ao ser
(estação de caminho de ferro de coimbra a)
(reprodução da newsletter)
Decorrem os trabalhos de limpeza da aldeia Avieira do Patacão, em Alpiarça, dinamizados pela AIDIA – Associação Independente para o Desenvolvimento Integrado de Alpiarça. Os trabalhos decorrem há cerca de dois anos, envolvendo sempre cidadãos voluntários. No ano de 2010 foram lá oferecidos 80 dias de trabalho-homem e no ano de 2011 foram oferecidos 70 dias de trabalho-homem, o que perfaz até hoje 150 dias de trabalho voluntário para limpar a aldeia histórica e o próprio Patacão. A Câmara Municipal de Alpiarça cedeu maquinaria, sem a qual os trabalhos não se teriam desenvolvido tão rapidamente.
A aldeia começa a mostrar a sua face limpa, porque num sábado em cada mês estas pessoas prescindiram do seu descanso para cumprirem com uma missão cívica e cultural. Por lá vão continuar, um sábado de cada mês, até que a aldeia esteja completamente limpa.
No dia 17 de Dezembro de 2011, cumpriu-se mais um sábado de trabalho voluntário. Conseguiu-se juntar nove pessoas para continuar a limpar a aldeia abandonada, e alagar a maracha do Tejo. Contou-se com a colaboração dos bombeiros municipais de Alpiarça, que vieram assistir a uma queimada controlada dos resíduos de vegetação que praticamente “engoliu” a aldeia e que agora houve que remover integralmente, o que ocorreu neste dia.
Aproveitou-se o dia também para alagar, ou tombar, salgueiros na maracha do rio Tejo – na zona do Patacão – como forma de proteger as margens da erosão das cheias e defender as terras da lezíria ribatejana.
Dos voluntários, quatro eram pescadores Avieiros. Aproveitámos a sua presença para os entrevistar. Os seus testemunhos de vida e de trabalho deram origem à presente Folha Informativa.
O Gabinete de Coordenação
(Projecto de candidatura da cultura Avieira a património nacional imaterial e da Unesco)
—
Cultura Avieira – Um património, uma identidade
história já somos
desta arte
máquinas de músculos
feitas
aqui fizemos diferentes
lavrares
barcos e redes
foram nossos arados
alfaias outras
destes lugares
corremos na areia
entrámos pelo mar
senhores nunca fomos
que doutros era o poder
o mandar
éramos da arte
o diverso
que na memória ficou
(torreira; século XX)
pela estreita entrada
que a maré deixou
o pescador guia o barco
em busca do abrigo
do cais, do regresso
ansiado
deram-se as mãos
como há muito não
chegados que eram
de outros caminhares
perdidos no tempo
a bateira
vem pesada
caranguejo muito
a paga
sempre pouca
a vida cadela
deram-se as mãos
e beijaram-se
é este o aparelho da xávega