quando o mar trabalha na torreira_ana amaral


ana amaral (mãe do alfredo)

 

são estes os dias
de sol farto que me fazem sorrir
os bois de mansos que são
sem medo acaricio
desta arte irmãos

é verão
estou viva o mar é meu
são minhas areias ondas água
barcos irão ao mar
haverá peixe na praia
comida em casa

todos os recantos das dunas
me contam histórias que só eu
ondas quebram na areia
lançando no vento nomes
que não esquecerão

são estes os dias
em que estou viva
é verão

 

(torreira; século XX)

falo dos palhaços


tá quase

antes

muito antes de

o silêncio e

 

depois

a surpresa

os momentos abertos à luz

olhos de criança

todos

 

erro esse dizer:

assistência

todos somos actores

no acto

 

liberta a criança que há em ti

deixa que ela dê a mão

à gargalhada cristalina

pequenina a teu lado

sente como enorme

 

posso?


 

maravilha esta música

nas janelas escrita pela chuva

 

quando a água cai do céu

fico assim parada no tempo

de sentir tudo

vontade de mãos para além do vidro

onde a terra as chama

desejo de sentir no corpo

a escrita da chuva

nas poças de água

os pés a correrem sem mim

 

mãe

quando chove

apetece-me abrir a porta

e ir dançar ao som desta música

de água que o céu deixa cair

posso?

quando o mar trabalha na torreira_antónio vasques


antónio vasques (falecido)

 

por mais que não queira
é para o mar que os meus olhos
correm

o fascínio das ondas
rebentando da areia
em gritos de agonia
sofrida de tanto mar andado

um barco que parte
outro que chega
as gentes
redes caixas cordas juntas
tudo isso se projecta
na tela imensa azul e verde

é este o meu mundo
feito de sol e vento
areia e mar

redes que remendo
sacos que fecho
à espera de os rasgar

 

(torreira, século XX)

 

quando o mar trabalha na torreira_esmeraldina vasca


esmeraldina vasca (falecida)

 

vejo o peixe
faço contas

quantas canastras dará?
na lota quanto poderá valer?
quando fizerem o leilão até onde posso ir?

pisco o olho ?
baixo a cabeça ?
levanto o dedo ?

tantas maneiras de dizer o meu preço:
não dou mais
compro
não quero
sem dar a saber aos outros

é esta a minha arte
saber comprar
para poder vender

também eu vivo do mar
do mar e do que ele der

vendo peixe
é esse o meu viver

tu és o dia


quando as portas têm janelas

 
constrói os dias
enche-os de ti
tu és o dia
 
sente como o sol
nasce dentro de ti
há um sonho por realizar?
tenta hoje
pode ser o dia
 
sente como cada instante
é teu
não deixes que  to roubem
 
inventa janelas
onde portas
não serás o primeiro
é apenas a tua vez de
 
tu és o dia
assim o queiras
 
(granja do ulmeiro)