o aroma do silêncio
o sol desce o fotógrafo cresce a máquina urge outro olhar sobre ele cai mergulhando sol e homem no mesmo momento de silêncio
(serra da lousã, junho 2011)
ninguém pode desconhecer que a droga mais consumida, legal e mortífera, em portugal, é o álcool.
o seu consumo em excesso é uma das principais causas de morte no nosso país, quer directa, quer indirectamente.
as comunidades rurais e piscatórias são das mais afectadas por este flagelo. por isso, quando alguém se consegue libertar do seu consumo é uma vitória com uma dimensão muito superior ao que qualquer de nós pode imaginar.
nos últimos anos a torreira tem assistido a vencedores silenciosos na batalha contra o consumo. são homens que conseguiram por vontade própria abandonar totalmente o álcool.
são homens novos, remoçados e sorridentes. estão mais vivos que nunca e são felizes como não se lembram de o ter sido.
a todos aqueles que por este país estão em luta para deixar o consumo, ou já o conseguiram, quero deixar a minha homenagem com o retrato de um grande amigo que hoje aqui publico.
este é um vencedor anónimo, um herói silencioso, sorridente, humilde e sem medalhas, que não as que a si próprio todos os dias apõe.
(henrique da bóia; torreira; anos 90)
há quanto tempo não sonho afinal o mar não é de vinho e o ti borras nunca foi à américa ficámos onde nascemos lembro-me de criança ainda ajudar a minha mãe na escolha do peixe ver no meu pai o eu de amanhã as dunas eram então o meu esconderijo agachado no seu ventre espreitava o futuro era o mar que me chamava
(no aniversário da morte de carlos paredes – 23 de julho)
que palavras
te dizer
agora
que tu já não?
mas tu
és ainda
não o seres
seria não teres sido
do pau de uma vassoura
em caxias
fizeste braço de guitarra
e tocaste
sem som
sem cordas
mas com alma
que palavras
te dizer
sobre pautas
com claves
aguardando as notas
que para ti
hão-de outros
escrever?
a guitarra geme
o homem vibra
os ouvidos choram e riem
por ti carlos

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