rebrilha no carapau
um sorriso
promessa de haver
da pesca
à venda
há porém
um longo
caminho
a percorrer
(torreira, companha do marco, 2009)
é assim quando se realizam as regatas de moliceiros na ria de aveiro.
as mais conhecidas são:
– torreira/aveiro (durante o mês de julho)
– bico (murtosa) em agosto na festa do emigrante
– torreira em setembro pelo s. paio (8 de setembro é dia da festa, mas a regata não tem dia fixo, depende da maré).
nesses dias os barcos, que já não são muitos, surgem dos diferentes embarcadouros, alindados e prontos para mais um reviver efémero.
vêm da murtosa, da bestida, de ilhavo, da torreira…. de toda a ria, onde ainda existem amantes destes barcos que os conservam para estes momentos.
os apoios para estas regatas, já o disse e repito-o, são os dos donos e uma migalhas do turismo de aveiro. a única câmara que apoiava financeiramente a manutenção de um moliceiro era a de ovar, mas até esse barco foi vendido para as viagens turísticas que partem de aveiro – cidade que nada tem a ver com os moliceiros e que os vai castrando para turista consumir.
assim vamos por cá
(torreira, 2010)
na minha opinião o moliceiro será um dos mais belos barcos do mundo, digo um dos mais belos porque não os conheço todos, mas certamente será, para além de ser um barco com uma configuração esbelta.
um dos aspectos mais importantes do moliceiro é a decoração, com especial cuidado nas pinturas dos painéis da ré e da proa, num total de 4. teses de doutoramento existem sobre estas decorações, tipologias e significados, tal a importância que revestem na história destes barcos.
este painel da ré do moliceiro a.rendeiro, do ti zé rebeço, da murtosa é, para mim, um dos mais belos que encontrei nos últimos anos: é a história do barco dentro dele mesmo.
a pintura retrata os tempos áureos do moliceiro e fala-nos do que foi, sem saudade, enaltecendo a beleza passada.
deixo-vos esta imagem e nela um pouco da história da ria de aveiro.
(torreira, regata de moliceiros 2011)
uma corda
desce pela parede
dos dias
um raio de sol
espreita
por entre grades
o cimento
cheira a homens
cheira a suor
a sangue
a luta
negras
as vozes erguem-se
nas ruas
os corpos movem-se
ao sabor de danças guerreiras
herdadas
jamais roubadas
sonegadas
branqueadas
pedra a pedra
o cimento caiu
a luz entrou
o muro ruiu
a luta
ainda não terminou
mas o teu dia
madiba
é O DIA

sou a que nunca ficou em casa nunca foi ao mar sou a que ajuda a empurrar o barco a que o espera em terra sou a que escolhe o peixe e entre duas picadas de peixe aranha se levanta e nasce na areia um outro rio sou a mãe a mulher a filha a viúva sou a mulher da arte que a arte não lembra
(torreira; anos 90)