a beleza do sal (200)


espírito criativo
nunca tive
não sei o que é

por isso escrevi os dias
como foram quando foram
de sol mar e vivos corpos

fui tudo o que escrevi
sou tudo o que escrevo

no tempo que me resta
sou espectador atento
deste mundo cada vez
mais merdoso e escrevo

meto as mãos na merda
agito-a mexo-a bem
depois

atiro com ela à cara
de quem posso
e é pouco

(sal do mar; rer; morraceira; 2016)

crónicas da xávega (590)


em louvor dos críticos

contava meu pai
que um amigo aposentado
se dedicou a uma
quinta que tinha no norte

cada amigo que o visitava
deixava um conselho
sobre como cuidar da terra
todos tinham opinião

cansado o aposentado
colocou na entrada da quinta
um letreiro onde se lia

aceitam-se conselhos
não de quem saiba mais
mas de quem tenha feito melhor

foi o fim dos conselhos

se ele se tivesse dedicado
à poesia escrito estava
o seu melhor poema

eu que leio muito
e sou miudinho na leitura
que olho com olhos de fotógrafo
e oiço com ouvidos de tísico
penso

ah aposentado que ainda estavas
ao serviço

(xávega; saco seco vai para o carro; praia da leirosa; 2019)

postais da ria (545)


que metáfora
para o sniper que alveja
uma criança indefesa
uma mulher que leva o filho pela mão
um homem que caminha

que metáfora
para o tiro certeiro
no peito na cabeça
para o assassínio preciso
sorridente impune de safari

que figura de estilo
para a terraplanagem 
o apagar da memória
o que tanto foi

que metáfora
para o genocídio impune
realimentado em dólares
e silêncio acomodado

que figura de estilo
falta ainda inventar 
porque tudo surpreende
quando pensávamos
já ter visto tudo

que metáfora
para esta merda de tempo
em que vivemos

(bateiras; torreira; 2013)