crónicas da xávega (596)


escreve com um machado
essa arma medieva
no pulso presa
decepava cortava
mutilava indefesa gente

escreve com um machado
essa ferramenta de lenhador
no abate das grandes árvores
cortar lenha para o inverno
afiado gume funda ferida

escreve com um machado
bela metáfora para
a navalha de ponta e mola
língua bífida de víbora bípede

(xávega; ir ao mar; largar o reçoeiro; torreira; 2014)

crónicas da xávega (595)


hoje não me apetece escrever 
e há muita força neste não
obrigações não tenho
assunto não falta mas

hoje não me apetece escrever
já me vi ao espelho e não gostei
notícias do mundo tão tristes
assunto não falta mas

hoje não me apetece escrever
talvez quem sabe uma questão
de confiança de falta dela
ou da chuva não sei mas

definitivamente
hoje não me apetece escrever

(xávega; reparar redes; torreira; 2012)

skim board_buarcos (7)


não
recuso-me a não ser
do meu tempo

recuso-me a não ser
as pedras-palavras
as palavras-pedras
no vidro dos dias

não
recuso a cegueira
auto imposta para
sossego das noites

como feridas abertas
pururlentas estes dias
escrevo-te o ser hoje
o ontem e temo o amanhã

não
não quero ser mais um
silêncio sentado no sofá
a cumentar calado

recuso-me a ser cúmplice
por omissão
as palavras são a minha
intifada aqui

(skimboard; tamargueira; buarcos; 2011)