a beleza do sal (208)


amanhã cá em casa
é dia da mulher

à hora mais ou menos
esperada
toca à campaínha
e entra

no fim da sessão laboral
a casa cheira bem
a roupa passada a ferro
a cama feita de lavado
e tudo tudo tão limpo

amanhã cá em casa
é dia da mulher

um dia à tarde
todas as semanas
a toca do lobo
fica um lugar habitável

(sal do mar; rer; morraceira; 2016)

a beleza do sal (207)


se pequeno é o país
serem de palavra os homens
era grandeza diversa

conquistámos a liberdade
de ser inteira escrita
dita a palavra assumida

nas brancas paredes
as palavras inscreveram
os dias sem medo

cinquenta anos depois
desbotadas paredes
envergonhada palavra

o pequeno país
de pequenos homens
é um circo falido

(carregar sal no dumper; armazéns de lavos; 2019)

a beleza do sal (201)


tantos anos
tantas vidas
tanto amor

casas ruas
cidades

um povo é uma língua
uma terra
um lugar onde morar

cidades
casas ruas

tanto amor
tantas vidas
tantos anos

mata-se um povo
salga-se a terra
arrasam-se casas
ruas cidades

a apagar a memória
a história
chamam agora limpar

assassínio programado
assistido apoiado
não por nós não por nós

(mexer; armazéns de lavos; 2017)

a beleza do sal (200)


espírito criativo
nunca tive
não sei o que é

por isso escrevi os dias
como foram quando foram
de sol mar e vivos corpos

fui tudo o que escrevi
sou tudo o que escrevo

no tempo que me resta
sou espectador atento
deste mundo cada vez
mais merdoso e escrevo

meto as mãos na merda
agito-a mexo-a bem
depois

atiro com ela à cara
de quem posso
e é pouco

(sal do mar; rer; morraceira; 2016)