poema para este tempo
entre os carniceiros de gaza
há descendentes do holocausto
(rer e achegar; morraceira; 2016)
amanhã cá em casa
é dia da mulher
à hora mais ou menos
esperada
toca à campaínha
e entra
no fim da sessão laboral
a casa cheira bem
a roupa passada a ferro
a cama feita de lavado
e tudo tudo tão limpo
amanhã cá em casa
é dia da mulher
um dia à tarde
todas as semanas
a toca do lobo
fica um lugar habitável
(sal do mar; rer; morraceira; 2016)
se pequeno é o país
serem de palavra os homens
era grandeza diversa
conquistámos a liberdade
de ser inteira escrita
dita a palavra assumida
nas brancas paredes
as palavras inscreveram
os dias sem medo
cinquenta anos depois
desbotadas paredes
envergonhada palavra
o pequeno país
de pequenos homens
é um circo falido
(carregar sal no dumper; armazéns de lavos; 2019)
tantos anos
tantas vidas
tanto amor
casas ruas
cidades
um povo é uma língua
uma terra
um lugar onde morar
cidades
casas ruas
tanto amor
tantas vidas
tantos anos
mata-se um povo
salga-se a terra
arrasam-se casas
ruas cidades
a apagar a memória
a história
chamam agora limpar
assassínio programado
assistido apoiado
não por nós não por nós

(mexer; armazéns de lavos; 2017)