as mãos dadas
os dedos
sentirmo-nos unos
fluir por elas
o que de mais
entre nós já não cabe
os lábios, dizes
eu sei:
beija-mos

(torreira; 2009)
hoje não te escrevo deixo que inventes as palavras que te diria se nos déssemos por dentro do silêncio onde somos peixes e aves, flores e gazelas hoje não te escrevo somos só
sinto-me sem mim. de tão só me não encontro. onde parará quem sou ? quem fui onde ficou ?
vagueio entre o eu e o não-eu. Entre estar aqui ou noutro sítio, qual a diferença ? a única geografia possível está em mim, é aí que me devo sentir habitante de .
a tudo me sinto aqui paralelo. acaso algum dia me intersectarei algures ?
dêem-me um código postal, atribuam-me uma classificação nos vossos catálogos.
e que fazer da memória, do engenho de pensar ainda ? não caibo no vosso mundo porque rompi as cadeias que me tolhiam os olhos, mas agora que vejo demais, quem me dera cego.
saravá meu irmão porque hoje
faz 30 anos que te foste sem teres partido
mas sabes:
tem muita gente bebendo no bar
porque hoje é sábado
e um pato que passa em seu bambolear
porque hoje é sábado
a garota de ipanema continua linda
porque hoje é sábado
e maria bethânia é sempre bem vinda
porque hoje é sábado
tem um operário em construção
porque hoje é sábado
e toquinho pegou em seu violão
porque hoje é sábado
tem um poeta sentado à mesa
porque hoje é sábado
e uma festa feita de surpresa
porque hoje é sábado
tem uma garrafa de whisky e um copo cheio
porque hoje é sábado
há alegria e há receio
porque hoje é sábado
há uma voz rouca que canta
porque hoje é sábado
e nada no mundo já nos espanta
porque hoje é sábado
há uma moça morta em miramar
porque hoje é sábado
e um aniversário a comemorar
porque hoje é sábado
há um homem que não morrerá jamais
és tu meu poeta vinicius de moraes
porque hoje é sábado
há um poema que atravessa o mar
e há ondas que te querem abraçar
porque hoje é sábado
saravá meu irmão
porque hoje é sempre o teu sábado
(visita: http://www.tocadovinicius.com.br/)

torreira; 2007
uma das artes de pesca da ria de aveiro é a arte do berbigão.
o aparelho é a “cabrita” que pode ser “alta” ou “baixa” consoante o tamanho do cabo, tendo em conta se a apanha é feita em zonas de profundidade ou em “cabeços”.
nesta arte o trabalho, para ser rentável, é repartido entre marido e mulher.
a apanha depende de três condicionantes:
1. da permissão para a apanha
2. do tipo de licença do pescador
3. da encomenda
cada saco leva 20 kg de berbigão, por aqui se vê a força do sexo fraco da ria.

torreira; 2007
(falaremos dela com mais pormenor técnico e fotos a seu tempo)

nunca lhe soube o nome era o nosso vizinho sempre em torno das suas duas paixões e preocupações o carro e a esposa era vê-lo nas tarde soalheiras de inverno capô aberto a dar de respirar ao motor a sacudir os tapetes a pôr o motor a trabalhar e a andar dez escassos metros com o carro era vê-los sentados ao sol manso de inverno abrigados do vento frio pelas paredes de vidro e chapa do carro ele a ler o jornal ela a fazer renda nunca lhe soube o nome conheci-lhe porém um pouco da vida mais importante que o nome nas conversas parcas das horas mortas do intervalo de almoço gostava de os ver a descer a calçada a caminho da bica depois de almoço ou do jantar se o tempo ajudava nunca lhe soube o nome mas nunca lhe esquecerei o rosto a educação que já não se usa o dobrar ligeiro sem ser servil da coluna enquanto levava a mão à cabeça para solevar o boné o cumprimento sempre pronto coisas de aldeia perdida na cidade nunca lhe soube o nome e agora mesmo que o viesse a saber já não poderia chamar por ele será sempre o nosso vizinho
nota – a foto não é do “nosso vizinho” é de todos os vizinhos
o verão. o sol a pino. os sobreiros: muitos.
a terra amarela: tanta. um homem só: o chapéu,
o colete. mais solitário ainda: o burro. o pó
cega a garganta. caminhos de areia percorro.
no plano o vento morre cansado: tão longe.
o monte. cães lentos ladram, não mordem.
as casas brancas, sempre. o friso azul debroa.
o vermelho: bandeira. o horizonte a perder.
a serra. a vida arrasta-se: tanto calor. o gado
pasta erva rala, mato seco. rasteiros pinheiros
tortos morrem: o sal. sobre o mar as dunas, os
calhaus. a areia: muita. a gente: pouca. assim
o malhão.
assim o alentejo!
nesta imensidão árida só teu rosto me humedece
os lábios.