marginal(c)idade



(?)

sinto-me sem mim. de tão só me não encontro. onde parará quem sou ? quem fui onde ficou ?

vagueio entre o eu e o não-eu. Entre estar aqui ou noutro sítio, qual a diferença ? a única geografia possível está em mim, é aí que me devo sentir habitante de .

a tudo me sinto aqui paralelo. acaso algum dia me intersectarei algures ?

dêem-me um código postal,  atribuam-me uma classificação nos vossos catálogos.

e que fazer da memória, do engenho de pensar ainda ? não caibo no vosso mundo porque rompi as cadeias que me tolhiam os olhos, mas agora que vejo demais, quem me dera cego.

carta a vinicius 30 anos depois


vinicius de moraes (commons.wikimedia.org

saravá meu irmão porque hoje

faz 30 anos que te foste sem teres partido

mas sabes:

tem muita gente bebendo no bar

porque hoje é sábado

e um pato que passa em seu bambolear

porque hoje é sábado

a garota de ipanema continua linda

porque hoje é sábado

e maria bethânia é sempre bem vinda

porque hoje é sábado

tem um operário em construção

porque hoje é sábado

e toquinho pegou em seu violão

porque hoje é sábado

tem um poeta sentado à mesa

porque hoje é sábado

e uma festa feita de surpresa

porque hoje é sábado

tem uma garrafa de whisky e um copo cheio

porque hoje é sábado

há alegria e há receio

porque hoje é sábado

há uma voz rouca que canta

porque hoje é sábado

e nada no mundo já nos espanta

porque hoje é sábado

há uma moça morta em miramar

porque hoje é sábado

e um aniversário a comemorar

porque hoje é sábado

há um homem que não morrerá jamais

és tu meu poeta vinicius de moraes

porque hoje é sábado

há um poema que atravessa o mar

e há ondas que te querem abraçar

porque hoje é sábado

saravá meu irmão

porque hoje é sempre o teu sábado

(visita: http://www.tocadovinicius.com.br/)

o sexo fraco?

o sexo fraco?


KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

torreira; 2007

uma das artes de pesca da ria de aveiro é a arte do berbigão.

o aparelho é a “cabrita” que pode ser “alta” ou “baixa” consoante o tamanho do cabo, tendo em conta se a apanha é feita em zonas de profundidade ou em “cabeços”.

nesta arte o trabalho, para ser rentável, é repartido entre marido e mulher.

a apanha depende de três condicionantes:

1. da permissão para a apanha
2. do tipo de licença do pescador
3. da encomenda

cada saco leva 20 kg de berbigão, por aqui se vê a força do sexo fraco da ria.

KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

torreira; 2007

(falaremos dela com mais pormenor técnico e fotos a seu tempo)

o nosso vizinho


(pouca pena; soure; 2005)
nunca lhe soube o nome
era
o nosso vizinho

sempre em torno
das suas duas paixões e preocupações
o carro e a esposa

era vê-lo
nas tarde soalheiras de inverno
capô aberto a dar de respirar ao motor
a sacudir os tapetes
a pôr o motor a trabalhar e
a andar dez escassos metros com o carro

era vê-los
sentados ao sol  manso de inverno
abrigados do vento frio
pelas paredes de vidro e chapa do carro
ele a ler o jornal
ela a fazer renda

nunca lhe soube o nome
conheci-lhe porém um pouco da vida
mais importante que o nome
nas conversas parcas das horas mortas
do intervalo de almoço

gostava de os ver a descer a calçada
a caminho da bica
depois de almoço ou do jantar
se o tempo ajudava

nunca lhe soube o nome
mas nunca lhe esquecerei o rosto
a educação que já não se usa
o dobrar ligeiro sem ser servil
da coluna 
enquanto levava a mão à cabeça
para solevar o boné
o cumprimento sempre pronto
coisas de aldeia perdida na cidade

nunca lhe soube o nome
e agora
mesmo que o viesse a saber
já não poderia chamar por ele 

será sempre
o nosso vizinho

nota – a foto não é do “nosso vizinho” é de todos os vizinhos

era uma vez um amigo – vitor caravela


este ano, ao regressar à torreira para uns dias de descanso, muitas foram as portas onde bati e em muitas foram más as notícias que recebi: faleceu, foi a palavra mais ouvida. está mal….
assim se vão indo os amigos e vamos resistindo, que é da lei da vida continuar.
a memória porém começa a encher-se de rostos que nunca mais.
o vitor morreu dia 6 de junho, hoje foi a enterrar o secundino e outros mais …
assim todos os anos há mais espaço para os que partiram. só que este ano foi muita gente.
saudades de todos e continuar a recordá-los: o estar vivo aqui
(murtosa – torreira)

do além tejo


o verão. o sol a pino. os sobreiros: muitos.

a terra amarela: tanta. um homem só: o chapéu,

o colete. mais solitário ainda: o burro. o pó

cega a garganta. caminhos de areia percorro.

no plano o vento morre cansado: tão longe.

o monte. cães lentos ladram, não mordem.

as casas brancas, sempre. o friso azul debroa.

o vermelho: bandeira. o horizonte a perder.

a serra. a vida arrasta-se: tanto calor. o gado

pasta erva rala, mato seco. rasteiros pinheiros

tortos morrem: o sal. sobre o mar as dunas, os

calhaus. a areia: muita. a gente: pouca. assim

o malhão.

assim o alentejo!

nesta imensidão árida só teu rosto me humedece

os lábios.