o nosso vizinho


(pouca pena; soure; 2005)
nunca lhe soube o nome
era
o nosso vizinho

sempre em torno
das suas duas paixões e preocupações
o carro e a esposa

era vê-lo
nas tarde soalheiras de inverno
capô aberto a dar de respirar ao motor
a sacudir os tapetes
a pôr o motor a trabalhar e
a andar dez escassos metros com o carro

era vê-los
sentados ao sol  manso de inverno
abrigados do vento frio
pelas paredes de vidro e chapa do carro
ele a ler o jornal
ela a fazer renda

nunca lhe soube o nome
conheci-lhe porém um pouco da vida
mais importante que o nome
nas conversas parcas das horas mortas
do intervalo de almoço

gostava de os ver a descer a calçada
a caminho da bica
depois de almoço ou do jantar
se o tempo ajudava

nunca lhe soube o nome
mas nunca lhe esquecerei o rosto
a educação que já não se usa
o dobrar ligeiro sem ser servil
da coluna 
enquanto levava a mão à cabeça
para solevar o boné
o cumprimento sempre pronto
coisas de aldeia perdida na cidade

nunca lhe soube o nome
e agora
mesmo que o viesse a saber
já não poderia chamar por ele 

será sempre
o nosso vizinho

nota – a foto não é do “nosso vizinho” é de todos os vizinhos

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