PESCAS : COMANDANTE BALDAQUE DA SILVA – Inquérito industrial de 1892


desenho de fernando galhano

PESCAS

COMANDANTE BALDAQUE DA SILVA

Inquérito industrial de 1892

Distrito de Aveiro

Concelho de Estarreja ( Torreira)

I Portos

……………..

Torreira ( pesca fluvial, pesca costeira e apanha de plantas)

Os refúgios procurados pelas embarcações que concorrem à pesca  marítima são sempre as praias dos portos a que ellas pertencem, pis que, como os pescadores d’este concelho se afastam só até curta distância da costa, depressa voltam a ella quando as circumstâncias do tempo variam.

II  Duração do trabalho

A pesca da sardinha é feita na Torreira de maio a dezembro; a de peixe de outras espécies, particularmente do robalo, com redes só para ellas destinadas, durante todo o anno na Cruz do Marujo, mas principalmente desde fevereiro até novembro; e a do mexoalho, também na Torreira, no decurso dos meses da pesca da sardinha, mas com maior assiduidade de agosto a outubro.

O serviço da pesca à sardinha só é executado desde a madrugada até pouco depois do pôr do sol, conseguindo as companhas dar 4 lanços, e excepcionalmente 5, em dias de verão, e nunca mais de 1 nos de inverno. A média annual do número de lanços por companha approxima-se de 300, e as folgas de serviço só se limitam aos dias em que o estado do mar se oppõe ao exercicio da pesca, e aos dias santificados anteriores a 8 de setembro (S. Paio), pois que depois de tal data até trabalham ao domingo.

A média de trabalho diário póde, com alguma approximação, ser computada em 9 horas, e em 105 dias a annual, attendendo a que a quadra de pesca abrange 5 mezes de verão e 3 de inverno.

O serviço de pesca do mexoalho (mexoalho ou pilado : caranguejo de carapaça mole, que flutua no mar, e era vendido para adubo) convida pouco os pescadores d’este concelho; ordináriamente só se entregam a ele na Torreira quando vêem chegar a rede da sardinha muito cheia de tal crustáceo, indicação certa de que elle abunda. Não é por isto, superior a 30 a media annual de dias de trabalho, approximando-se de 6 horas a de trabalho diario, o qual é sempre feito a pé, e executado entre o nascer e  occaso do sol.

Merece tambem, sem duvida, a classificação de variavel, o tempo consumido na beneficiação dos apparelhos de pesca….

Para a reparação das redes da sardinha têem as companhas pessoal certo, ao qual não sobra muito tempo para descanso durante a quadra de actividade da pesca.

III Pessoal

1. Para a pesca da sardinha trabalham na Torreira 6 companhas formadas por pessoal que não é certo; póde, contudo, computar-se em 150, o numero medio de homens empregados na primeira e segunda, em 120 o mesmo numero na terceira e na quarta, e em 100 igual numero nas duas ultimas,  o que perfaz um total médio de 740 homens. Todos os filhos varões dos pescadores são incluidos nas companhas embora sejam recem nascidos, de fórma que, admittindo que os pescadores casados tenham 4 ou 5 filhos do sexo masculino, o que não dista da verdade, mas suppondo que, em media, têm apenas 2, o que compensará o numero d’aquelles que não têm nenhum, achar-se-há, como fazendo parte de todas as companhas, um total de 1:480 rapazes, cuja idade é comprehendida entre algumas horas, e apenas 14 annos; apoz este segundo limite são considerados como homens. Como é claro, muitos d’estes rapazes, são perfeitamente inuteis para o serviço.

É de 240 o numero máximo de homens que trabalham no mar, sendo o pessoal restante empregado no serviço de terra.

Parte d’esta gente alterna o exercício d’esta classe de pesca com o da pesca , a pé, do mexoalho, sendo no entanto mais asssiduos tres grupos de 12 homens.

Deve notar-se que cerca de 286 homens e 66 rapazes das companhas da sardinha exercem a pesca na ria, de janeiro a abril, e mesmo nos dias de outros mezes em que a agitação do mar impede o trabalho na costa, havendo por isto sido incluidos no pessoal de Pardelhas, porto onde então recolhem.

2. Na pesca da sardinha o maior numero de pescadores tem tambem uma unica remuneração; porém, alguns, na media de 9 por companha da Torreira, vencem salario, cujo limite maximo é de 100$000 réis e o minimo de 18$000 réis por safra de sardinha.

3. O material das companhas de pesca de sardinha da Torreira pertence, em regra, a um único individuo, ou a pequeno numero de parceiros, a que denominam senhorios; da 2 companhas de um só senhorio sendo de parceiros as 4 restantes.

Compete aos senhorios o pagamento de 100$000 réis por safra ao primeiro arraes, de 60$000 réis ao segundo arraes, de 31$500 réis a cada um dos homens da agulha, que são dois encarregados do serviço de reparação das redes,  e de 43$300 réis a 1 guarda do apparelho, o qual no inverno faz rede nova, trabalho este que lhe é pago á parte.

É dado de arrematação, também pelos senhorios, o serviço de conducção de madeira (bordões) para transporte dos pandeiros de cabo, trabalho este desempenhado por 4 homens, e que, em media, custa 40$000 réis por safra; é igualmente dado de arrematação o serviço de tirar a sardinha com os redanhos do sacco da rede, trabalho que muitas vezes fica a cargo dos arrematantes da conducção de madeira e que importa na media de 10$000 réis por safra.

Paga a companha salario de 60$000 réis por safra ao cordoeiro, companheiro que no serviço de largar o lanço é encarregado da manobra das cordas da rede; o escrivão e procurador vencem a 60$000 réis por safra, e o chamador de gente, que tem o encaro de despertar a companha de madrugada, ganha 18$000 réis.

Em regra, os ajuste são feitos pelo Natal, e as soldadas pagas no fim da epocha de pesca; alguns comtudo, recebem-nas ás prestações, consoante as necessidades a que têem de occorrer. Tem acontecido, ainda que só raras vezes, alguns senhorios deixarem de as pagar pretextando escassez de lucros colhidos na safra.

A partilha dos proventos acessorios é feita pela fórma seguinte: abate-se do producto da venda do lanço o imposto do pescado, 1 ½ por cento da perdoança aos compradores, a quantia precisa para o pagamento do gado, e as marinhas, sendo o resto dividido em tres partes iguais, uma para os senhorios e duas para a companha.

São estas sub-divididas em quinhões iguaes, a que dão o nome de quatro quartos, cabendo a cada companheiro, incluidos os senhorios quando trabalham, numero de quinhões comprehendido entre 7 ½ e 2, e a cada moço numero que varia de 2 a ½ sendo este ultimo limite o que é abonado aos recemnascidos. O numero de quinhões depende, para os homens, da importancia do cargo que elles exercem , e para os moços, da classe do logar que os paes desempenhem, ou da necessidade de remunerar bem os filhos para conservar no serviço da companha os paes, quando sejam habeis.

Dá tambem a companha 3 quinhões a cada um dos 3 medicos residentes nas freguezias a que pertence o pessoal, sob a condição de tratarem gratuitamente os individuos que os procurem, dizendo pertencer á companha, declaração que algumas vezes é falsa; a alveitares dá 2 quinhões, incumbindo-lhes o dever de tratarem do gado e, não raras vezes, de valerem a alguns companheiros que a elles recorrem; ao padre dá 2 ou ½ quinhão, impondo-lhe a obrigação de dizer por vezes missa e de lhes ministrar soccorros espirituaes; e, por fim, ao coveiro dá 2 e ½ quinhões.

A viuva do companheiro fallecido por desastre occorrido em serviço tem direito ao quinhão que ganhava seu marido, emquanto não mudar de estado.

Os paes que ficarem ao desamparo por lhes morrer o filho no serviço da companha, são igualmente abonados com o quinhão que cabia ao fallecido.

A qualquer companheiro que for recrutado é concedido augmento de quinhão por determinado numero de safras, até que tenha pago a despeza feita para se livrar.

Áquelle que se invalidar em serviço é garantido o quinhão que percebia anteriormente, sendo-lhe fornecidos alimentos e medicamentos emquanto estiver em tratamento.

Aquelle que adoecer, sem que a doença derive de serviço, conserva apenas o vencimento do quinhão que lhe cabia em actividade.

Os companheiros antigos, ainda que por avançamento de idade se vejam forçados ao desempenho de cargo de menor importancia, conservam sempre o quinhão que venciam primitivamente.

Todo o companheiro fallecido em serviço é enterrado a expensas da companha a qual também manda rezar missas por sua intenção.

Em regra a partilha é feita ao domingo, mas o escrivão todos os dias informa a companha do valor do quinhão que corresponde a esse dia. Calculam que todo o lanço que produzir menos de 23$000 réis não deixa ganho algum aos pescadores; que o que rende 50$000 réis dá quinhão do valor de 25 réis, e que aquelle que for vendido por 100$000 réis produz um quinhão de 70 réis; calcula igualmente, que toda a safra que não der rendimento superior a 10.000$000 de réis não deixa lucro aos senhorios.

É esta receita aplicada ao pagamento dos salarios que não são de conta do senhorios; ao da barcagem, isto é, do transporte do pessoal entre a Bestida e a Torreira, o qual é satisfeito por avença, importando em quantia comprehendida entre 25$000 réis e 30$000 réis por safra; ao pagamento em vinho, do serviço de alcatroara e encascar as redes, fornecendo os senhorios os aviamentos precisos; ao abono de gratificações de 9$000 réis e 14$000 réis por safra, aos companheiros que melhor serviço prestam; e, por fim, serve também para o arraes conservar , durante os mezes de folga da pesca, boas relações com s companheiros que mais convem ao serviço, conservação obtida mediante o offerecimento de vinho em qualquer ocasião que os encontre, e para outras despezas similhantes, que todas mostram o empenho que há em conservar a gente da propria companha, e mesmo em atrahir a das outras.

As marinhas consistem no abono de 0,26l de vinho e um pão a cada tripulante do barco, e a alguns que exercem os cargos mais importantes em terra, gratificação dada pelo serviço de 1 ou 2 lanços no mesmo dia, e duplicada no caso de o numero de lanços se elevar a 3 ou 4. O custo medio de uma marinha é de réis 5$000. Ao pessoal do barco é por vezes distribuida uma gratificação de aguardente antes de partir para o mar, de madrugada, e tambem por vezes é dada a toda a companha uma gratificação de vinho, o que geralmente acontece ao fim de um dia de trabalho violento. É feita esta despeza pelo cofre da companha.

O vinho é, em regra, fornecido por armazens pertencentes aos arraes, orçando por quantia comprehendida entre 1:000$000  2:000$000 réis a despeza feita nelles pela companha.

O gado necessario para o serviço é contratado por escriptura, na qual o fornecedor se obriga a ter as juntas de bois alojadas na praia da Torreira, desde o primeiro dia em que forem chamadas até áquelle em que o arraes as mandar retirar; á multa de 10$000 réis quando algum gado falte ao serviço de um lanço, e a multa arbitrada pelo arraes quando o gado compareça tarde para o mesmo serviço, ou quando falte, ainda que não haja pesca, no primeiro dia em que for chamado para a Torreira; a não exigir pagamento pelo lanço em que o sacco de rede ficar perdido no mar, ou, não acceitando esta condição, a abater mensalmente a importancia de um dia de trabalho do gado.

Os arraes obrigam-se a pagar 900 réis por lanço, por cada uma das 12 juntas de bois que trabalham na companha, e a dar 1 ½ quinhão da pescaria a cada moço que acompanhar o gado, elevando este abono, a 2 ½ quinhões quando aes moços sejam aproveitados como tripulantes do barco, caso que algumas vezes se dá por falta de pessoal.

O pagamento do gado é ordináriamente effectuado em 2 o 3 prestações, sem epocha determinada.

Alguns arraes abastados compram as juntas de bois, contratando com o vendedor o tratamento e alimentação d’ellas, mediante a clausula de serem partilhados a meias os lucros ou perdas havidas na safra.

As companhas que pescam com arrasto do mexoalho na Torreira, deduzem o imposto do pescado e pagamento do gado do producto da pescaria, dando 1/3 do resto á rede e barco, e partilhando 2/3 em quinhões, dos quais cada companheiro tem 1, e cada moço 1, ¾ ou ½ consoante o serviço que presta.

São 6 as juntas de bois auxiliares de serviço, cada uma paga á rasão de 300 réis por lanço.

4. Segundo informação fornecida pela administração do concelho de Estarreja, todas as freguezias a que pertencem os portos de pesca são providas de escolas oficiaes de instrucção primaria, assim distribuidas: Pardilhó uma para cada sexo, Bunheiro idem, e Murtosa 2 para o sexo masculino e 1 para o sexo feminino .

(Nota: A Torreira pertence à Murtosa.)

De informações officiosas deduz-se que, approximadamente, um terço do pessoal que exerce a industria da pesca …., é constituido por individuos dotados com alguma instrucção, ainda que estas em alguns casos é deveras rudimentar. A frequencia das escolas não é diminuta no tempo em que não ha pesca na Torreira; comtudo, a maioria dos alumnos é composta daquelles que, pela pouca idade, ainda não são aproveitaveis nos trabalhos da ria ou campo.

5. …. Os palheiros onde, durante a ehpoca da pesca da sardinha se aloja na Torreira o pessoal das companhas, são de madeira, cobertos de telha, construidos sobre estacas, com um ou dois pavimentos e munidos de uma só porta, ou porta e janella; o typo mais abundante é, talvez, o que occupa uma superfície de 10 metros quadrados.

Todas estas habitações pertencem ás familias que as occupam, tendo em algumas pousada sem despendio, e conjuntamente com a familia locataria, diversos membros de outras familias que ali não possuem casa.

6. …. A gente que concorre à pesca da sardinha na Torreira faz constituir, em grande parte, n’aquelle peixe a sua alimentação, e abastece-se de outros generos nas vendas daquella praia, onde dispõe de grande credito, especialmente para a compra de vinho. Quando algum se encontra em apuros recorre, em regra, ao arraes da sua companha pedido adiantamento, que, por vezes, deixa de pagar, para o que muda de companha; no emtanto, segundo dizem, estes casos são sobremaneira compensados pelas sobras que os arraes conservam em seu poder.

São estes pescadores poderosamente auxiliados pelas mulheres, algumas das quaes angariam maiores proventos do que seus maridos, acarretando sardinha para os armazens durante o dia, e, por vezes, de noite, conduzindo o mexoalho da costa da Torreira para a margem banhada pela ria, e negociando na compra ou venda de peixe.

Em geral os senhorios e arraes das companhas não luctam com difficuldades; mas ainda assim, quando se vejam em embaraços, encontram facilmente recursos nas lojas das localidades, onde lhe facilitam qualquer quantia que não seja muito avultada, sem exigencia de juro. Emprestimos de maior importancia apenas os obtêm com garantia e juro de 7 a 1 por cento ao anno.

7. Não existe o concelho instituição alguma destinada a soccorer a classe piscatoria.

As companhas da Torreira, constituem, como já se viu, associações de soccorros, cuja organisação poderia ser bastante melhorada, e, por vezes, dispendem algumas sommas no cumprimento de promessas feitas aos santos da sua maior devoção para que seja abundante a pescaria; cifram se geralmente estes votos na celebração de festividades e offertas de azeite.

8. Relativamente aos sinistros, que causassem mortos, …. na Torreira pereceu em 1887, um pescador de sardinha, por se haver virado, ao largar da praia, e em resultado do estado do mar, o barco que tripulava; deixou viuva cega e 5 filhos, 2 dos quaes menores. Á viuva, que ainda actualmente reside no logar de Montes, freguezia da Murtoza, foi conservado o quinhão que o seu marido percebia, e os filhos, tanto os maiores como os menores, continuam prestando serviço em diversas companhas.

EmbarcaçõesBarcos grandes de fundo chato. – Não diferem dos do concelho da feira, sendo fornecidos às companhas da Torreira pelos constructores de Ovar.

…. são barcos destinados exclusivamente á pesca da sardinha, têem a fórma de meia lua, com o bico da prôa exageradamente alto e curvo, grande chão de caverna, com o qual, na casa mestre, o costado fórma angulo mui pouco superior a 90º, sendo solidamente construidos, e reforçados á prôa e pôpa por boçardas de ferro assentes no forro exterior. Pequeno castello no bico da prôa, duas bancadas para remadores, fortes arganeus na pôpa e amuras para ligação dos cabos de encalhar, e um varão de ferro que, assente na borda proximo á alheta de estibordo, serve de defensa para, ao largar da rede esta não deteriorar o casco, completam a embarcação.

Tem o seu typo medio de comprimento de 11m,50, bôcca de 3m,65, pontal de 1m,20, calado de, proximamente, 0m,70 na linha de agua carregada, arqueação de approximadamente, 15m3,546, podendo com carga até a um maximo, que dizem proximo de 10:000 kilogrammas.

São movidos por dois remos de castanho com o comprimento de 11m,90, de pá curva, a qual na extremidade da face concava é munida de chapa de ferro para contrabalanço, e tripulados por companhas de 30 a 40 homens, e attribuem-lhes a duração comprehendida entre 4 e 5 epochas de pesca da sardinha.

2. Redes – Pesca maritima.Arrastos ou artes da sardinha

(Nota: Segue-se a descrição da redes usadas no concelho da Feira, que servem de base, com as adaptações que a seu tempo discriminaremos, para as artes da Torreira)

São formadas por um sacco de secção trapezoidal, tendo bôcca de cerca de 70 metros de circumferencia, profundidade de perto de 40 metros, e no fundo, que é denominado cuada, a largura de 8 metros.

Da bôcca do sacco, em posições diametralmente opostas, partem duas redes quadrangulares, designadas pelo nome de mangas o bandas,  cada uma das quaes mede, proximamente 230 metros de comprimento, e 25 de altura, correspondente a 306 malhas, na parte ligada ao sacco, diminuindo esta dimensão até ser de cerca de 20 metros, correspondente a 106 malhas, na ponta da manga, á qual denominam calão.

São as mangas formadas por quatro qualidades de rede, as quaes, a partir do sacco para o calão, e cingindo a ortographia á pronuncia dos pescadores, se chamam, alcanella, caçarete, regalo e claro, e a rede é entralhada em cabo de grossa bitola, dobrado na parte da bôcca do sacco comprehendida entre as mangas, e singelo nos lados superiores e inferiores d’estas.

Paralelamente á tralha das mangas corre uma outra linha de pequena bitola, a distancia de 0m,35 da primeira, recebendo as linhas superiores pedaços de cortiça de 0m,4 de altura, 0m,2 de largura e 0m,03 de espessura, os quaes são denominados pandas, e têm entre si o intervallo de 0m,6, e sendo enroladas às linhas inferiores pranchadas de chumbo de 0m,15 em 0m,15.

Os fluctuadores ligados á tralha superior da bôcca do sacco são circulares de 0,m2 de diametro e 0m,06 de grossura, com intervallo de 1 metro, e o lastro de chumbo na tralha opposta é espaço de 1m,60.

A malha é de fórma quadrada em toda a rede, variando o seu lado, no sacco, de 0m,010 no fundo até 0m,05 na bôcca; nas mangas cresce desde 0m,075 na alcanella, até 0m,25 no claro junto aos calões, sendo a malha dobrada na parte onde a alcanella se junta ao sacco.

São os calões aguentados por cabos, singelos ou dobrados, de linho ou manila de 0m,012, ou de 0m,02 de diametro, acessorios a que os pescadores chamam cordas, e que, emendados uns aos outros, servem para a manobra da rede. É de 30 o numero maximo de rolos de corda que trabalha em cada calão, e como cada rolo tem comprimento comprehendido entre 120 e 130 metros, é portanto de 3:750 metros o maximo afastamento da praia que a rede attinge. São também os calões munidos de caos seguros a barris estanques vazios, conjunto a que dão o nome de arinques.

Os arrastos são feitos em Espinho, de linho grosso fiado á roda pelos cordoeiros, sendo o fio de 48 cordões, bem torcido, e de diametro perto de 0m,0015 no sacco, e pouco torcido, com diametro de proximamente 0m,001 nas bandas; a rede é toda encascada, isso é, tinta com infusão de casca de salgueiro, e por fim são as mangas alcatroadas. Valem, quando novos, 260$000 réis, importando em media na quantia de 15$000 réis cada rolo de corda, os quaes são usualmente fornecidos pelos cordoeiros da cidade do Porto.

São estas redes muito sujeitas a deterioração, principalmente na cortiçada, a qul é a miudo destroçada pelas patas do gado, e a sua duração maxima poucas vezes excede uma epocha de pesca da sardinha.

Funccionam estes apparelhos manobrados, como já se disse, por companhas que, em media, são de 50 pescadores, auxiliadas por 24, ou 26, ou 28 juntas de bois, para o que é a seguinte a organisação do serviço. Larga da praia o barco, deixando em terra o chicote da corda que pertence a um dos calões, cabo a que é dado o nome de roçoeiro, e navega em direcção proximamente perpendicular á costa, até que attinja o logar, onde convenha largar o lanço, local que, em regra, não deve ter profundidade superior a 18 metros; então, começa o lançamento da rede ao mar, navegando o barco em rumo quasi paralelo á costa, e a favor da corrente que dominar, e, largo que seja o segundo calão, guina a embarcação direita á terra, para a qual se dirige, arriando pouco a pouco a outra corda, que é denominada mão de barca.

Effectuado o regresso do barco, são as juntas de bois distribuidas pelo roçoeiro e mão de barca, os quaes alam por intermedio de pequenos cabos, que, partindo da canga, e munidos de grande trambelho no chicote, facilmente se ligam ou soltam dos cabos de rede. Roletes de pau collocados á borda da agua facilitam esta manobra.

Não puxam as juntas a todo o comprimento, até que a rede chegue á praia, o que demandara grande extensão de terreno desempedido; seguem só até certa distancia da margem, vindo emendar depois perto d’esta. O afastamento das duas linhas de bois, que a princípio da faina é grande, diminue á medida que a rede se approxima, e o seu local de alagem vae-se deslocando parallelamente para o norte, ou para o sul, conforme a direcção em que a corrente arrasta o apparelho.

Logo que o sacco encalha na praia, cáe sobre elle a companha, desfaz o porfio que fecha uma abertura longitudinal de que elle é munido, e por alli o despoja da pescaria, sendo então a occasião propicia para, não só os companheiros, como as mulheres e menores de sua familia, e ainda pessoas alheias á companha, se abonarem fraudulentamente de quinhões de pesca. Segue-se por fim distribuir a sardinha em lotes para venda, e separar o peixe de outras especies que com ella venha misturado, quando a venda não seja feita pela totalidade do lanço, como por vezes succede.

IV Material de pesca


Quando, ao chegar o sacco a curta distancia da praia, se reconheça que vem sobrecarregado, vae um barco pequeno passar-lhe fundas, que lhe reforçam a cuada, e que consistem em redes de um só panno, com comprimento de 25 metros, altura de 11 metros a meio e de 4 metros nas pontas, malha quadrada de 0,m065 de lado, tralhas fortes, e fio de boa grossura. São estes accessorios feitos na localidade de pesca, valem cerca de 14$000 e os seus cabos de alagem são puxados a braços, ou por ou quatro juntas de bois.

Quando durante a faina, succeda avaria aos cabos da rede, vae tratar da sua reparação um dos barcos pequenos.

Trabalham as diversas companhas…, ás vezes simultaneamente, funccionando as redes em logares proximos; outras vezes o lanço de uma companha envolve o de outra sendo a rede alada para o mesmo logar da praia.

…. os arrastos ou artes da sardinha “são” iguaes áquelles que fazem uso as companhas do Furadouro, “ do “concelho “ vizinho“ de Ovar. Na Torreira a alagem destas redes é feita por meio de cordas de manila cada uma das quaes tem o comprimento medio de 25 metros, custando 2$800 réis nos cordoeiros da cidade do Porto; em cada calão usam mais de 160 cordas.

Os saccos das artes são fabricados em Ovar, as mãos ou mangas são feitas na Torreira pelos guardas do apparelho, durante os mezes de descanso da pesca. Aos saccos arbitram a duração de uma ou duas safras de sardinha, sendo superior a das mangas.

Ordinariamente o serviço do lanço é desempenhado por uma única embarcação, e só excepcionalmente vae um refe com a mão de barca, porque, segundo dizem, apesar d’este processo accelerar muito o serviço, torna muito fatigante o trabalho do gado.

(….. estas redes, mais conhecidas pela de denominação de artes, ….; o seu valor, quando novas, orça por réis 290$000.

Os cabos de alagem das artes são conhecidos por cordas quando são singelos, por cabos quando dobrados, e por olras quando triplicados, acontecendo que as cordas depois de usadas passam a fazer dos cabos, passando estes a olras quando estejam nas mesmas condições.

As companhas do Furadouro usam, em geral, cordas de manila, com diametro de 0,m22 a 0,m25, ou de linho um pouco mais delgadas, tendo o comprimento medio de 60 metros, e valor de 7$000 réis; são fornecidas pelos linheiros e cordoeiros da cidade do Porto.

É attribuida a estas artes a duração de um anno, apesar de, como precauão, usarem redes novas durante os mezes de inverno, e de evitarem quanto possivel o emprego de redes em bom estado nas occasiões de baixamar. Calculam uma quantia proxima de 9$000 réis a importancia dos estragos que uma arte sofre em cada lanço. )

Na Torreira a alagem d’estas redes é feita por meio de cordas de manila, cada uma das quaes com o comprimento medio de 25 metros, custando 2$800 réis, nos cordoeiros da cidade do Porto; em cada calão nunca usam mais de 160 cordas.

Os saccos das artes são fabricados em Ovar, e as mãos ou mangas são feitas na Torreira pelos guardas do apparelho, durante os mezes de descanso da pesca. Aos saccos arbitram a duração de uma ou duas safras de sardinha, sendo superior a das mangas.

Também na Torreira usam fundas iguais ás do concelho da Feira, aladas a bois e a braços, quando o sacco de arrasto vem sobrecarregado de sardinha.

ARTE DA XÁVEGA (Gaspar Albino – Boletim Municipal de Aveiro – Ano XIV(1996) – nº 27)


desenho de gaspar albino

ARTE DA XÁVEGA

(Gaspar Albino – Boletim Municipal de Aveiro – Ano XIV(1996) – nº 27)

A arte de xávega, do árabe xabaka*, é um aparelho de pesca de arrasto demersal** que, na nossa costa, é lançada pelo barco de mar. Partindo da praia, desloca-se até à distância consentida pelo aparelho e à praia regressa, iniciando-se, então, o arrasto propriamente dito.

A xávega é, portanto, uma arte envolvente de arrastar pelo fundo e alar para a praia, constando o aparelho, ou arte,  de um saco prolongado por duas asas ou mangas, nos extremos dos quais se amarram os cabos de alagem, ou calas.

É constituído por extenso pano de rede de malha quadrangular, intersectado, ao centro, por um saco do mesmo género; o espaço da intercepção corresponde à boca do saco e designa-se pelo nome de bocada; às duas fracções do pano, que se desenvolvem para cada lado desta, dá-se o nome de mangas, que, desde a junção à bocada, decrescem em largura até à extremidade oposta, que tem o nome de calão, ponta da manga onde se prendem as calas, que são cabos de alagem deste sistema de aparelho de pesca.

  • Segundo José Pedro Machado – “Dicionário etimológico da língua portuguesa” – quer dizer rede
  • O arrasto demersal faz-se com o topo da rede à superfície, podendo ser variável a profundidade do arrasto

Esta é a descrição da arte que nos é dada pelo etnógrafo Domingos José de Castro, na sua obra “Aveiro – Pescadores”, editada pelo Instituto de Alta Cultura, em 1943.

Por essa altura, o saco, de forma trapezoidal, andava pelos 70 metros de circunferência, 40 de profundidade e 8 de largura, na cuada ou fundo do saco. A malhagem era, somente,  de 1 cm, na cuada, até atingir 6,5 cm, na bocada, que era guarnecida na sua parte superior, por uma cortiçada – flutuadores de cortiça – e, na sua parte inferior, era lastrada por tijolos.

Cada uma das mangas tinha 230 metros de comprimento, começando por uma largura de 25 metros, na parte do saco, e decrescendo até 20 metros, no calão. As mangas eram constituídas por panos de fio singelo de malha, que só era dobrada junto à bocada.

Ao longo das mangas, pela parte de cima e por um e outro dos lados, corriam, paralelamente, duas linhas, a uma distância de 35 cm, e guarnecidas com pandas, bocados de cortiça que suspendiam o aparelho a uma altura de água, que nunca deveria exceder a da bocada. Pelo lado de baixo, mais duas linhas guarnecidas de discos de barro cozido – pandulhos ou bolos – lastravam as mangas de forma a que o aparelho arrastasse mesmo pelo fundo. Nas extremidades de cada uma das mangas, eram presos, por uma corda, barris estanques, chamados balizas ou arinques. Um outro barril – o clime – era colocado na coada do saco.

O aparelho era feito, nesses tempos, de fio de linho, que era, depois, posto numa infusão de casca da salgueiro, ficando com uma cor acastanhada, para não assustar o peixe. As mangas, para além do encasque, eram passadas por um banho de alcatrão.

As calas de alar o aparelho podiam ser de linho ou de esparto e eram divididas em rolos, partes que se emendavam umas nas outras. Estes rolos chamavam-se cordas, quando eram singelos, cabos, quando eram dobrados, e olras, quando eram triplos.

O número de rolos que constituíam as calas, variava de praia para praia, podendo ir de 160 rolos de 60 metros cada, até 29 rolos de 99 metros cada.

Isto define que os barcos de mar se poderiam afastar da praia, de 2.800 a 9.600 metros, para lançar o aparelho de pesca.

As calas eram transportadas, do palheiro da praia até ao barco, rolo a rolo, por vários grupos de 2 homens munidos de um bordão, colocado ao ombro.

A rede era levada em procissão pelos tripulantes, colocando-se, no barco, primeiro, a manga inicial, depois, o saco, seguido da segunda manga; por fim, colocava-se a bordo o reçoeiro – isto é, a cala de recolha da arte para terra.

Esta é uma descrição sumária dos elementos físicos que constituíam o aparelho da xávega propriamente dito.

Hoje em dia, as artes da xávega, em esquema, são muito semelhantes às dos tempos recuados, diferindo, somente, nas suas dimensões e nos materiais de que são feitos os aparelhos ou redes. Ao linho sucederam os nylons, os polipropilenos e os polietilenos.

Com efeito as maiores redes da xávega da nossa costa vão, agora, somente, até cerca dos 200 metros. Mas há xávegas mais pequenas que não ultrapassam os 100 metros, se bem que todas mantenham a mesma estrutura básica de outros tempos, quando a arte propriamente dita chegava a ultrapassar os 300 metros.

Não há enquadramento legal da arte da xávega, que hoje se usa.

O Barco de Mar ou o Xávega

Fácil se torna entender que a arte da pesca empreste o seu nome ao barco que com ela se exercita.

Com efeito, assim acontece no caso do barco de mar, que é utilizado na xávega, na nossa costa ocidental atlântica, desde Espinho até Vieira de Leiria, ao qual os pescadores chamam, tão simplesmente, de o xávega.

Domingos José de Castro na obra que já citámos no início ……….. define o barco de mar como “ aparentemente desprovido de solidez /…/, de bicas exageradamente alteadas /…/, mas que, na realidade, possui um jogo de características especiais que parece explicar as condições que o apropriam à função marítima que lhe é atribuída “

Precisamente porque tem de oferecer às ondas a menor resistência para as galgar de pronto, mal assente na água, como descreve Raul Brandão, este barco conjuga o seu formato, semelhante a um crescente, com o sistema planiforme de fundo, pela falta de portos de abrigo, o acesso directamente para o mar e vice-versa, e suportar com mais facilidade, pela elevação pronunciada dos castelos da proa e da ré, a violência da pancada do mar, ou quebra das ondas, na manobra arriscada da travessia da faixa de rebentação geralmente forte, no litoral de areia que se delimita, a norte, nas primeiras rochas de Miramar e a sul, ultrapassando o Cabo Mondego, nas areias da praia de Vieira de Leiria.

Raul Brandão compara-o com o “feitio côncavo do espaço que vai de vaga a vaga “ – o seio da vaga acrescentamos nós.

O barco grande da xávega é, ainda hoje,  como sempre foi , construído por madeira de pinheiro, e tinha, nas construções em uso no meados do século XX,  16,5 metros de fora a fora, 4,2 metros de boca, 3,5 metros de largura máxima de fundo entre costados, e um pontal de 1,3 metros. Deslocava cerca de 15,5 toneladas, calava cerca de 1 metro e tinha um esqueleto de 27 cavernas.

O período de vida útil de um barco deste tipo era de cerca de 8 anos, desde que submetido a regulares tarefas de manutenção.

Desde os seus alvores, foi sempre um barco a remos, com grupos de 2 ou 4 remos. No primeiro caso, os remos chamam-se : o de vante, remo-maião; o outro remo-proa. Nos barcos de 4 remos, estes chamavam-se, de proa para a ré: remo-de-castelo-da-proa, remo-maião, remo-proa e remos-de-castelo-da-ré.

No caso dos barcos de 2 remos, a tripulação era de 34 homens e nos de 4 remos, 46 homens.

Actualmente a grande maioria, se não a totalidade dos barcos de mar, só tem 2 remos, usados nas manobras de largada e de chegada à praia.

São mais pequenos de porte e a sua propulsão, no lance da arte, é garantida por motores de 40 cavalos, enxertadas na rabada dos barcos.

Quanto à origem destes barcos únicos na nossa costa portuguesa, muito há que esclarecer.

O arqueólogo naval Lixa Filgueiras , à luz de conhecimentos mais recentes e profundos, divide o nosso país em duas zonas. E o que o divide é o Douro, afirmando que, a norte deste, se verificam influências primevas escandinavo/germânicas, nas embarcações de rio, e bretãs, nas embarcações da costa. Como exemplo acabado das primeiras, aponta o rabelo do Douro; e das segundas, a lancha da Póvoa, que aquele cientista compara, de forma evidente, com o sinagot bretão.

Para sul do Douro, e em toda a nossa costa, Lixa Filgueiras afirma que o saveiro, para ele o nosso barco de mar, é o tipo mais significativo e o vector principal da mais antiga influência mediterrânica.

Referindo-se a uma origem mesopotâmica, ele realça a identidade espantosas – técnica e formal – entre o nosso barco de mar e um barco da antiga cidade babilónica de UR, que ainda sobrevive no baixo Eufrates e que, pela rota comercial até Ugarit ( via Eufrates, Aleppo, Alalakah ?), terá chegado ao Mediterrâneo.

Avança, ainda, com evidências iconográficas; selos cretenses, pinturas da tumba de Hagia Triada e, possivelmente, os murais de Thera, que garantem a presença de barcos idênticos no mar Egeu, numa progressão progressão para Ocidente, devidamente documentada.

Mais procura alicerçar a sua tese,/…/ avançando com o problema da origem étnica das comunidades piscatórias, que praticam a xávega com o nosso barco de mar, fundamentando-se com as suas peculiaridades, na coincidência das áreas de distribuição destes barcos, com as principais áreas de refúgio dos povos do sul da Ibéria, depois da queda de Tartesso.

Tudo isto repondo, a questão em aberto da influência cretense na desaparecida Tartesso.

Não resisto a citar, recorrendo ao texto inglês de Lixa Filgueiras, já citado:

“Acredito que será muito mais gratificante rever a teria de Shulten quanto à origem cretense dos povoamentos pré-tartessianos do sul de Espanha, desde os primeiros passos da metalúrgica local, cerca de 2.700 AC, até à chegada, cerce de 1.100 AC, dos fenícios a Cádis, capital proposta por Schulten para Tartesso, período em que se verificaram importantes acontecimentos no zona do mar Egeu e que, por certo, se reflectiram na costa mediterrânica ibérica. Os selos cretenses com barcos de meia-lua, datados de cerca de 2.200/2000 AC coincidem com a emergência da talassocracia  cretense e subsequente estabelecimento do seu comércio nas praias peninsulares. A rota do estanho e da prata funcionou e é o arqueólogo Shulten, a quem se recorre mais uma vez, que afirma que há vasos, colares e braceletes encontrados no SE da península e que são de origem cretense; assim como adagas de cobre peninsulares datadas do III milénio AC foram também encontradas na ilha de Creta. Tudo isto mercê do tráfego dos barcos de meia-lua, antepassados dos saveiros, nossos barcos de mar.”

A frota em que assentava a talassocracia cretense, terá chegado a Tartesso, e daqui à nossa costa, como já veremos.

Recorrendo a Fernando de Almeida ( in Enciclopédia Verbo), Tartesso terá sido um lendário estado monárquico peninsular, que abrangia uma vasta área, que iria desde a actual Cartagena até à foz do Tejo e cuja capital , possivelmente do mesmo nome, se localizaria em Cádis ou Sevilha. Tartesso, manteve vastos contactos com os povos do oriente mediterrânico        , por força dos quais terá surgido uma escrita semi-silábica, de que são conhecidas inúmeras inscrições, encontradas no Algarve e no Alentejo.

Mercê das suas riquezas mineiras, manteve este reino contactos com fenícios, etruscos, cartagineses, gregos, celtas e romanos.

Tartesso entrou em decadência e sucessores do seu último rei, Theron, terão sido os turdetanos e, depois, os túrdulos.

E terá sido um grupo de túrdulos que, segundo Estrabão, acompanhou um bando de “célticos”, numa campanha em direcção ao norte da Península.

Conforme Matoso, terão sido os Túrdulos Velhos (Turduliveteres), citados por Mélia e Plínio, que ocuparam as regiões do Vouga e do Mondego, alastrando até junto do Tejo.

Entre as duas cidades, contavam-se entre outras Aeminium (Coimbra), Conímbriga e Talábriga.

A nossa Talábriga, topónimo formado por TALA+BRIGA, tendo o primeiro elemento, possivelmente, origem na língua tartéssica e que significa “barro”, “argila”; o segundo, “briga” é de origem céltica e quer dizer  “monte”.

Ora, Talábriga ficaria segundo o itinerário de Antonino, a 40.000 passos de Aeminium, (Coimbra) na estrada romana que iria desta até “Cale”,  hoje Gaia : mais ou menos a 59 km por norte de Coimbra, aqui mesmo, na Branca, ao lado de Albergaria, onde ainda se  vêem restos da via romana.

Concluindo-se, para incitar novas buscas; a dispersão das populações do sul peninsular, depois da queda de Tartesso, pode-se comparar com as rotas de unificação dos barcos de meia-lua, os nossos barcos-de-mar , que se orientaram, em primeiro lugar, para a nossa região e, depois, refluíram, por razões bem diferentes e em épocas bem posteriores, para as várias praias de areia da nossa costa ocidental e do Algarve.

Homens da xávega

A história da arte da xávega é, em larga medida, a história do povoamento das areias litorâneas portuguesas do Atlântico ocidental e algarvio, particularmente, no grande areal da costa norte de Espinho, até Vieira de Leiria, e, mais para baixo, na Costa da Caparica, Santo André e Monte Gordo.

Habitando em precários palheiros construídos na praia, ou, até, sob os seus próprios barcos, ao longo dos séculos, começando muita antes até da constituição da nossa nacionalidade, há provas do uso de redes lançadas desde terra e recolhidas, também, para terra, só à força de braços; com barcos e com a ajuda de braços e com juntas de bois, ou como, acontece hoje, com tractores.

Os discípulos de Jesus, pescadores da Galileia, praticaram esta pescaria. Assim como os fenícios, os gregos e os romanos; os árabes, os catalães, os franceses espanhóis e os andaluzes, também.

Contudo, as redes da xávega, tal como as descrevemos, terão sido trazidas para Portugal, por catalães, tanto do lado da França, como do lado de Espanha , que aperfeiçoaram a arte, nas águas mediterrânicas.

Nós estamos numa terra que se pode também considerar o centro da irradiação da xávega. Possivelmente, e já agora invocando Magalhães Lima, por causa da influência tartéssica. Por volta de 1925, Magalhães Lima, com efeito já sugeria que os pescadores de Ílhavo, uma das mais importantes comunidades piscatórias da Ria de Aveiro, descenderiam do povo de tartesso.

Mas falemos, agora e aqui, acima de tudo da pesca da nossa região.

No século XI, já se amanhavam marinhas de sal na nossa Ria. Ovar, Aveiro, Ílhavo, Vagos e Mira já tinham deixado de ser povoações bordejando o Atlântico, para passarem a ser terras da Ria.

No século XII, a nossa barra estava na Torreira e só séculos mais tarde é que a restinga de areia, crescendo do norte a empurra até Mira.

Os nossos pescadores são pescadores-camponeses e os palheiros da nossa costa só ao abrigam nos períodos da safra. .

No século XII, há provas de que já havia pescadores de Ovar a fazer pesca de mar, assim como em Buarcos, Lavos e Mira.

À medida que a barra avança para o sul, deixa de haver marinhas em Ovar; as espécies de água salgada começam a rarear na laguna e a sua pesca começa a emprobrecer.

Os homens de Cabanões, Ovar, no século XVI, começam a trabalhar no Furadouro, pois que era a praia mais próxima. Depois, avançam para a Torreira e São Jacinto. A capela de Nossa Senhora das Areias é anterior a 1549. Por essas alturas, usam o chinchorro, uma arte mais pequena que a xávega e cujo pescado mais significativo era a sardinha.

No século XVIII Aveiro não teria mais de 1.400 casas em ruinoso estado, e a população morria de fome e de febres.

Mas, antes, no século XVI, Aveiro, no seu apogeu, armava mais de 150 barcos para o comércio de sal e para a pesca do bacalhau e não há notícias de emigração de pescadores.

Já não era assim no século XVIII, século da miséria das nossas terras, com a Barra, praticamente, fechada.

Os Ílhavos fundam, em 1170, uma colónia na Caparica.

O século XIX é um período mau para a economia da ria. A barra está má e dá-se a migração dos nossos pescadores. Formam-se mais companhas ao longo da nossa costa; na Costa Nova, na Vagueira, no Areão; os palheiros de Mira começam a ser construídos por pescadores de Ílhavo, no princípio desse século; e, depois, surge a Tocha.

É um ílhavo de nome Barreto, que leva para a Cova, a sul do Mondego, em 1808, a sua companha. Um outro ílhavo, logo de seguida, funda a companha de Lavos. E um outro, seu neto, chega à Leirosa.

Na mesma levada é gente de Lavos e de Mira que começa a trabalhar com a xávega, em Pedrógão.

Em Vieira de Leiria, a xávega também surge no princípio do século XIX.

Nos meados do século, a Costa da Caparica surge como uma colónia de ílhavos e algarvios.

No virar para o século XX, há lá 10 companhas, com mais de 700 pessoas.

Depois é a Fonte da Telha, a Costa da Galé, a lagoa de Santo André, sempre com gente da mesma origem: Ílhavo.

Quando o mar não deixa, os pescadores de Ovar e de Aveiro, ficam-se por Cascais e, mias adentro no Tejo, nas águas de Vila-Franca: são os avieiros.

Mas, a verdade é que, no século XIX, as capturas feitas pelas companhas entre Espinho e Mira, representam, grosso-modo, 1/6 do total das pescas de Portugal.

Mais de 5.000 pessoas empregam-se em 90 companhas, que se espalham por 25 praias da nossa costa ocidental

Os barcos e as xávegas aumentam de tamanho e começam a ser utilizados bois na faina.

Uma campanha, que chegava a empregar 200 pessoas, entre tripulantes e pessoal de terra, com a utilização dos animais, passa para de 80 a 100, desde que começaram a ser utilizados bois na faina.

As redes chegam a atingir os 700 metros, com lanços que chegam também a afastar-se da costa 6 km, usando, em cada manga, cordão de alagem que atinge os 10 km.

Os barcos de mar chegam a medir de, fora-a-fora, 16 metros, e os de 4 remos levam a bordo 46 homens, aos remos e aos cambões.

Até meados do século XIX as companhas tinham uma natureza cooperativista, repartindo-se o resultado da pesca em quinhões, uma vez deduzidas as despesas.

Depois, surgem empresas dominadas pelos grandes proprietários, comerciantes e conserveiros, pois que o espírito de companha se perdeu, em consequência de abusos dos arrais, que tinham deixado de ser eleitos e começaram a aparecer como patrões. Os pescadores passam a assalariados, recebendo um salário em dinheiro – a soldada -, mais uma pequena caldeirada e algum vinho.

Com o relançamento da pesca longínqua e do arrasto costeiro, em meados do século XX, e primeiras décadas da sua segunda metade, as xávegas quase desaparecem.

Mas, na última dezena de anos (1986-1996), com a política de abate de navios, favorecida pela Comunidade Europeia, em consequência da implantação de zonas económicas exclusivas e de uma tentativa de fazer com que se adequem as capacidades de captura aos recursos piscícolas sobre-explorados, em águas de países terceiros, está-se a assistir ao renascer da arte da xávega na nossa costa e ao renascer das pescarias artesanais, não só no litoral como no interior da Ria. É que milhares de pescadores perderam, por causa destas mudanças, o seu emprego nas pescas industriais.

/……/

A xávega renasceu mas, nem por isso, deixa de ser uma arte perigosa, como sempre foi, economicamente, aleatória e nociva das maternidades. Por regra, o peixe capturado é de dimensões reduzidas. E os rendimentos dos pescadores são insatisfatórios, por insuficientes e não regulares

marginal(c)idade



(?)

sinto-me sem mim. de tão só me não encontro. onde parará quem sou ? quem fui onde ficou ?

vagueio entre o eu e o não-eu. Entre estar aqui ou noutro sítio, qual a diferença ? a única geografia possível está em mim, é aí que me devo sentir habitante de .

a tudo me sinto aqui paralelo. acaso algum dia me intersectarei algures ?

dêem-me um código postal,  atribuam-me uma classificação nos vossos catálogos.

e que fazer da memória, do engenho de pensar ainda ? não caibo no vosso mundo porque rompi as cadeias que me tolhiam os olhos, mas agora que vejo demais, quem me dera cego.