o nosso vizinho


homem de pouca pena

nunca lhe soube o nome

era

“o nosso vizinho”

sempre em torno

das suas duas paixões e preocupações

o carro e

a esposa

era vê-lo

nas tarde soalheiras de inverno

capot aberto a dar de respirar ao motor

a sacudir os tapetes

a pôr o motor a trabalhar e

a andar dez escassos metros com o carro

era vê-los

sentados ao sol  manso de inverno

abrigados do vento frio

pelas paredes de vidro e chapa do carro

ele a ler o jornal

ela a fazer renda

nunca lhe soube o nome

conheci-lhe porém um pouco da vida

( mais importante que o nome)

nas conversas parcas das horas mortas

do intervalo de almoço

gostava de os ver a descer a calçada

a caminho da bica

depois de almoço ou do jantar

se o tempo ajudava

nunca lhe soube o nome

mas nunca lhe esquecerei o rosto

a educação que já não se usa

o dobrar ligeiro,

sem ser servil,

da coluna, enquanto levava a mão à cabeça

para solevar o boné

o cumprimento sempre pronto

coisas de aldeia perdida na cidade

nunca lhe soube o nome

e agora

mesmo que o viesse a saber

já não poderia chamar por ele

será sempre

“o nosso vizinho”