zé rebeço ou a recriação da descarga do moliço


em 2009 surpreendi o sr. josé rebeço, meu vizinho dos tempos de criança, a descarregar uma barcada no cais do bico.

depois de muitos anos emigrado nos estados unidos, de regresso definitivo à murtosa, resolveu reviver os seus tempos de juventude indo à “apanha do moliço”.

só que como já não há moliço, foi apanhar uma alga a que os pescadores chamam “cabelo de cão” e, sozinho, com um pequeno de motor fixo na beirada do moliceiro lá foi.

apanhei-o no acto da descarga. é esse registo que aqui fica.

o atracar

a forquilha

o engaço e a toste

o esforço com o engaço no fazer do monte

o fazer do monte

o moliço (cabelo de cão, que moliço já não há)

uma memória breve do meu tio césar que tanto me marcou:

“dos moliceiros e do moliço, algumas regras e rituais

na ria de aveiro existem algumas ilhas, zonas que se mantêm secas durante todo o ano, dentre estas destacam-se três na zona mais norte: monte farinha, amoroso e testada.

a riqueza das ilhas residia no junco que crescia no seco e no moliço que crescia debaixo de água. na ilha de monte farinha chegou a haver gado, de que se destacava a criação de cavalos.

a ilha do amoroso tinha três sócios, um dos quais era meu tio avô, motivo pelo qual o acompanhei muitas vezes nas viagens que fazia à ilha, para reparações nos canais e manutenção da casa que aí existia e tinha um poço e uma figueira.

para poderem explorar o moliço das zonas submersas da ilha, os proprietários pagavam à capitania uma licença especial, mas só podia apanhar moliço na ilha quem tivesse autorização dos donos. não havia zonas exclusivas para cada barco, toda a zona submersa podia ser explorada.

ao domingo de manhã, depois da missa, vestindo o “fato de ver a deus”, os moliceiros iam a casa do meu tio, responsável pela contabilidade do amoroso, que os aguardava, à porta de casa, com uma garrafa de vinho doce e um cálice, enquanto nas mãos segurava um pequeno saco de pano.

cada moliceiro dirigia-se ao meu tio e dizia: sr. césar esta semana foram “tantas” barcadas de moliço, a “tanto” cada uma dá…. e punham o dinheiro no saco, bebiam um cálice e iam até casa.

era assim até à hora de almoço: encontros de homens de palavra.

foi com estes princípios que fui criado e se tenho, como todos temos, pais biológicos, tenho na ria uma outra família que me educou e de mim fez o homem que sou.”

eu no bico – meados da década de 50 do século passado
(fotografia tirada pelo meu pai, domingos josé cravo)

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