migalhas lixo

pombos tempo

pelo chão espalhados

memórias e

 

penso-me

não sei se ainda

porquê assim?

onde eu?

pesa-me ser

 

 

uma mão

uma ternura

um abraço

uma refeição quente

com amor dentro

 

os pombos

arrulham em bando

e eu

eu espero coisa nenhuma

apenas

isto de ser companheira

de mim

 

 
 

quando o mar trabalha na torreira_antónio serra


antónio serra

 

o tempo passou
como o norte pela areia
deixou-me aqui
seguiu viagem para outros destinos

plantado neste areal
sou mais uma árvore
raízes fundas cravadas no mar
arrancando cada dia
o alimento que me mantém vivo

o tempo passou
com ele passarei também
serei memória se o for
poeira no vento
que voará para mais além

 

(torreira, século XX)