6 poemas de joaquim namorado ditos por rui damasceno


joaquim namorado

joaquim namorado

 

Aviso à navegação

(poema de Joaquim Namorado)

Alto lá!

Aviso à navegação!

Eu não morri:

Estou aqui

na ilha sem nome,

sem latitude nem longitude,

perdida nos mapas,

perdida no mar Tenebroso!

Sim, eu,

o perigo para a navegação!

o dos saques e das abordagens,

o capitão da fragata

cem vezes torpedeada,

cem vezes afundada,

mas sempre ressuscitada!

 

Eu que aportei

com os porões inundados,

as torres desmoronadas,

os mastros e os lemes quebrados

– mas aportei!

 

Aviso à navegação:

Não espereis de mim a paz!

 

Que quanto mais me afundo

maior é a minha ânsia de salvar-me!

Que quanto mais um golpe me decepa

maior é a minha força de lutar!

 

Não espereis de mim a paz!

 

Que na guerra

só conheço dois destinos:

ou vencer – ai dos vencidos! –

ou morrer sob os escombros

da luta que alevantei!

 

– (Foi jeito que me ficou

não me sei desinteressar

do jogo que me jogar.)

 

Não espereis de mim a paz,

aviso à navegação!

 

Não espereis de mim a paz

que vos não sei perdoar!

 

(Este poema de 1941 foi retirado da edição do Novo Cancioneiro da Caminho, de 1989, com prefácio, organização e notas de Alexandre Pinheiro Torres.)

(des)entendimento


marina dos pescadores da torreira

marina dos pescadores da torreira

porque entendo e ainda tenho memória

não entendo que não entendam

que eu entendo que o tribunal não deve ser preso

e o ladrão libertado e medalhado

 

mas há quem entenda o que eles entendem

que deve ser entendido por todos

 

não entendo que os funcionários públicos portugueses

não fazem parte do povo português

não entendo que os pensionistas já deviam ter morrido

no próprio acto de se aposentarem

 

mas há quem entenda o que eles entendem

que deve ser entendido por todos

 

não entendo porque depois de tanto ter passado

e estudado para ter entendimento

me seja pedido que entenda o que não tem

qualquer entendimento possível

 

mas há quem entenda o que eles entendem

que deve ser entendido por todos

 

espero que entendam

que a mim e a muitos como eu

não falta força anímica para continuar

a não entender o pretenso entendimento

que nos querem vender

 

espero que entendam

os que entendem o que lhes querem fazer entender

que ainda um dia vão entender

que entenderam mal

Pescadores querem vender peixe imaturo, partidos concordam


é este o símbolo da xávega e dos homens que dela vivem: coragem

é este o símbolo da xávega e dos homens que dela vivem: coragem

a luta pela viabilização da xávega está a conseguir dar pequenos grandes passos. a união de autarcas, sindicatos e a APX é de saudar e só podemos esperar que leve a bom lanço.

“Lisboa, 05 abr (Lusa) – Representantes de pescadores pediram hoje no Parlamento que seja permitida a venda do resultado do primeiro lanço da pesca por arte xávega, ainda que seja de dimensão inferior à autorizada por lei, merecendo a concordância da maioria dos partidos.

A Comissão Parlamentar de Agricultura e Mar ouviu hoje membros da Federação dos Sindicatos do Setor da Pesca e da Associação Portuguesa de Xávega e o presidente da Câmara de Mira, João Reigota (PS), a propósito dos projetos de resolução apresentados por PSD e CDS-PP, PS, PCP e Bloco de Esquerda para valorização da arte xávega (pesca artesanal, praticada junto à praia, principalmente em localidades como Aveiro, Figueira da Foz, Nazaré e Trafaria).

O presidente da federação, Frederico Pereira, pediu aos deputados que seja permitida a venda “do primeiro lanço, independentemente do tamanho da captura”. Atualmente, o pescado abaixo do tamanho mínimo permitido (12 centímetros, numa quota de 5%) é devolvido ao mar e os pescadores devem abster-se de exercer a sua atividade até ao virar da maré.”

popola


popola

popola

 

nunca lhe soube o nome

pois outro haverá

por detrás daquele

que é este

 

colada ao corpo

a alcunha

dirá de uma história

que desconheço

de um ter sido ou havido

que certamente é

 

popola

é um sorriso estampado no rosto

uma criança por dentro

de um homem

um sentir diferente dos demais

um braço igual a tantos

 

que sabe o mar disto?

 

 

(à memória do arrais zé murta, torreira, 2009)