torreira, companha do marco, 2009
Aviso à navegação
(poema de Joaquim Namorado)
Alto lá!
Aviso à navegação!
Eu não morri:
Estou aqui
na ilha sem nome,
sem latitude nem longitude,
perdida nos mapas,
perdida no mar Tenebroso!
Sim, eu,
o perigo para a navegação!
o dos saques e das abordagens,
o capitão da fragata
cem vezes torpedeada,
cem vezes afundada,
mas sempre ressuscitada!
Eu que aportei
com os porões inundados,
as torres desmoronadas,
os mastros e os lemes quebrados
– mas aportei!
Aviso à navegação:
Não espereis de mim a paz!
Que quanto mais me afundo
maior é a minha ânsia de salvar-me!
Que quanto mais um golpe me decepa
maior é a minha força de lutar!
Não espereis de mim a paz!
Que na guerra
só conheço dois destinos:
ou vencer – ai dos vencidos! –
ou morrer sob os escombros
da luta que alevantei!
– (Foi jeito que me ficou
não me sei desinteressar
Não espereis de mim a paz,
aviso à navegação!
Não espereis de mim a paz
que vos não sei perdoar!
(Este poema de 1941 foi retirado da edição do Novo Cancioneiro da Caminho, de 1989, com prefácio, organização e notas de Alexandre Pinheiro Torres.)
roda a pedra
em sentido contrário
aos ponteiros do tempo
esmagando grãos de anos
no percorrer do caminho do pão
o homem reencontra as raízes
sorri aos dias da infância
revivida no aroma da farinha
Poema de ahcravo
porque entendo e ainda tenho memória
não entendo que não entendam
que eu entendo que o tribunal não deve ser preso
e o ladrão libertado e medalhado
mas há quem entenda o que eles entendem
que deve ser entendido por todos
não entendo que os funcionários públicos portugueses
não fazem parte do povo português
não entendo que os pensionistas já deviam ter morrido
no próprio acto de se aposentarem
mas há quem entenda o que eles entendem
que deve ser entendido por todos
não entendo porque depois de tanto ter passado
e estudado para ter entendimento
me seja pedido que entenda o que não tem
qualquer entendimento possível
mas há quem entenda o que eles entendem
que deve ser entendido por todos
espero que entendam
que a mim e a muitos como eu
não falta força anímica para continuar
a não entender o pretenso entendimento
que nos querem vender
espero que entendam
os que entendem o que lhes querem fazer entender
que ainda um dia vão entender
que entenderam mal
a luta pela viabilização da xávega está a conseguir dar pequenos grandes passos. a união de autarcas, sindicatos e a APX é de saudar e só podemos esperar que leve a bom lanço.
“Lisboa, 05 abr (Lusa) – Representantes de pescadores pediram hoje no Parlamento que seja permitida a venda do resultado do primeiro lanço da pesca por arte xávega, ainda que seja de dimensão inferior à autorizada por lei, merecendo a concordância da maioria dos partidos.
A Comissão Parlamentar de Agricultura e Mar ouviu hoje membros da Federação dos Sindicatos do Setor da Pesca e da Associação Portuguesa de Xávega e o presidente da Câmara de Mira, João Reigota (PS), a propósito dos projetos de resolução apresentados por PSD e CDS-PP, PS, PCP e Bloco de Esquerda para valorização da arte xávega (pesca artesanal, praticada junto à praia, principalmente em localidades como Aveiro, Figueira da Foz, Nazaré e Trafaria).
O presidente da federação, Frederico Pereira, pediu aos deputados que seja permitida a venda “do primeiro lanço, independentemente do tamanho da captura”. Atualmente, o pescado abaixo do tamanho mínimo permitido (12 centímetros, numa quota de 5%) é devolvido ao mar e os pescadores devem abster-se de exercer a sua atividade até ao virar da maré.”
nunca lhe soube o nome
pois outro haverá
por detrás daquele
que é este
colada ao corpo
a alcunha
dirá de uma história
que desconheço
de um ter sido ou havido
que certamente é
popola
é um sorriso estampado no rosto
uma criança por dentro
de um homem
um sentir diferente dos demais
um braço igual a tantos
que sabe o mar disto?
(à memória do arrais zé murta, torreira, 2009)