os moliceiros têm vela (64)


do social

a espera

a espera

caminham silenciosos
sensíveis que são ao ruído
dos primeiros passos

aparecem sempre sobre o tarde
dizem de sua justiça
o não dever ser assim como é

arriscam pouco cautelosos
no segundo lugar
da segunda fila a sua cadeira

são a sombra que bebe do sol
o terem voz breve avinagrada

gosto deles como de
certos animais

longe

inventar os  dias

inventar os dias

(murtosa; regata do bico; 2012)

o meu amigo joão magina


o meu amigo joão magina

do pai o  o nome também

do pai o o nome também

nasce-se na ria
como se em casa
cresce-se numa bateira
como se na rua

a vela por paixão
a ria por estrada
as redes as cabritas
as velas e as regatas

por sobre as águas
amigos tenho
de idades várias
gerações muitas

pais tios avós
todos
mas todos
com a ria no sangue

e o futuro incerto

da família a alegria

da família a alegria

(torreira; marina dos pescadores)

os moliceiros têm vela (63)


o meu lado

que se passará sob a superfície das  aguas?

que se passará sob a superfície das
aguas?

escrevo de um país ao lado
de um povo sem casa
nem abrigo desempregado
ou mal pago doente
de não haver orçamento
e não saber o que isso é

escrevo de um país ao lado
de meninos mascarados de homem
mamando no biberão do tacho
cuspindo insultos sem pudor
sobre quem nada pode

escrevo de um país ao lado
marginalizado por ter sido sempre
o motor do barco e ser lançado
borda fora pelos passeantes de serviço
como se lastro a mais depois de usado

cansa-me esta gentinha de gravata
fato pendurado no corpo
passeando o arroto em alta cilindrada
pelas avenidas da minha vergonha
escrevo de um país ao lado

e sei qual é o meu lado

é preciso encher os olhos para tapar a boca

é preciso encher os olhos para tapar a boca

(ria de aveiro; regata da ria; 2010)

crónicas da xávega (49)


o meu amigo nicole

o nicole, a albina e o marco

o nicole, a albina e o marco

como grãos de areia
os dias e os amigos
vão-nos deixando perdidos
nas praias da memória
sem redes nem peixe

eu sei que estás aqui
nicole
porque te vejo e te sinto
no olhar-te

há dias para fazer
e outros para lembrar
há uma imagem
o teu rosto nela e a mão
as mãos falam-me

e tu
tu partiste para ….
não sei quando
para regressares agora

nada é
mas tudo pode ser

somos, dos que partiram, uma eternidade breve

somos, dos que partiram, uma eternidade breve

(torreira; companha do marco; 2010)

os moliceiros têm vela (60)


deste estar aqui longe

quem espera ......

quem espera ……

por entre os dedos
voam palavras
rios pedras sentires

eu em tudo
eu em nada
eu por aí

por entre os dedos
tudo me escapa
tudo escorre
nada fica

uma imagem sorri
pede mais que silêncio
pede pede pede

e eu ….

a cor é acção.... como fazer?

a cor é acção…. como fazer?

(murtosa; regata do bico; 2007)