os moliceiros têm vela (77)


dos gatos

em bando vogam

em bando vogam

à janela o gato sábio
lambe os bigodes fartos
queda-se imóvel
no gastar dos dias

sereno constrói o salto
imagina a presa sem pressa
espera espera espera

crítico
não desespera
o gato

gosto do laborioso rato

toda a beleza é aqui

toda a beleza é aqui

(ria de aveiro; regata da ria; 2010)

quem dera camões se engane


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ESPREITA AQUI – um livro para quem gosta dos moliceiros
acabei de receber e ler, com prazer, os 3 últimos livros de Sérgio Paulo Silva, editados pela Câmara Municipal de Estarreja, dedicados aos painéis dos moliceiros, à arte xávega e ao mercantel

são livros sem quaisquer pretensões de sabedoria, mas em que o amor às coisas da terra se sente em cada página. são 3 declarações de amor em forma de piquenos livros.

o livro dedicado aos painéis dos moliceiros “Espreita Aqui” para além de um breve texto introdutório, recolhe 140 imagens de painéis, com uma impressão de muita qualidade. por apenas 10 euros, pode ser encomendado à Câmara Municipal de Estarreja, que suporta os portes. comprem-no que é memória de amor.

………….

uma nota sobre os livros e um executivo de que gosto cada vez mais

………….

não haverá muitas semanas recebi de Paulo Silva um email, anunciando a publicação dos livros, de que retiro as seguintes linhas:

“Há uns 3 anos, aos bocadinhos, ora no Guedes com o café da manhã, ora na esplanada da Alice esperando que minha mulher aparecesse para irmos para a praia, escrevi três livrinhos que não são mais que a minha memória e o meu olhar para algumas coisas nossas. Foram mostrados na Biblioteca de Estarreja ……..

A coisa para mim não era viável porque, devido ao nº de fotos, seria forçosamente superior às minhas posses. Mas agradou à vereação da CME que tentou a via da Fundação Madureira (gerida em parceria com a CMM). Não deu porque a CMM não avalizou. Ora, a CME avançou a solo. E finalmente estão aí. ……..

Chamam-se O Burro de Carga, sobre o barco mercantel; Espreita Aqui, sobre os painéis dos moliceiros e, finalmente, A Memória Fugidia da Areia, sobre a “nossa” arte xávega. Tudo, repito, não mais que a minha memória e o meu sentir……“

(nota: os sublinhados são meus)

é com tristeza que verifico que o executivo da câmara municipal do coração da ria se recusou a colaborar nestas publicações. a Torreira não deve pertencer à Murtosa, os moliceiros são barcos de outras terras e os mercantéis haja quem se preocupe com eles.

continuo a perguntar pela pátria do moliceiro e como bate o coração da ria. a resposta vem a cada nova notícia.

nem a pátria tem arrais à altura, nem o coração está em grande estado.

camões escreveu, no seu tempo, que “um fraco rei faz fraca a forte gente “, quem dera camões se engane.

os moliceiros têm vela (75)


um nós novo

nós

nós

traz-me tudo menos
esse olhar perdido
onde já nada navega
senão o por dentro
de coisa nenhuma

o vazio é um caminho
não o inicies

empresta-me os teus olhos
deixa que os leve até onde
fomos sol e sombra
ombro a ombro os dias galgados
na cumplicidade concebida
de afectos

o vazio é um não lugar

o braço que te abraça
suporta o peso insuportável
dos anos sobre ti

és tu e eu
um nós diverso
em busca de

nós sempre

nós sempre

(ria de aveiro; regata da ria; 2009)

os moliceiros têm vela (74)


ausente

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o rosto parado
a expressão ausente
o corpo prisão

resta o que resta
não será muito nem pouco
tão só o que ainda

perdido o sorriso
na voz treme a solidão
ouve-se o medo

é ensurdecedor

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(murtosa; regata do bico; 2009)

cada cavadela uma minhoca (1)


galiza, onde os moliceiros e as companhas?

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o zé rito quando o mastro quebrou no final da regata da ria, em 2014

não há muito tempo, dei uma volta pela página da câmara municipal da murtosa na internet
http://www.cm-murtosa.pt/ e, logo na entrada, nas notícias, encontrei a seguinte referência:

Murtosa destacada na imprensa galega 

http://www.cm-murtosa.pt/templates/genericdetails.aspx?id_object=7551&divname=116s154s4&id_class=4

e a imagem da notícia lá estava, mas lê-la era impossível. contrariamente ao costume neste tipo de publicações, a sua divulgação é acompanhada pelo link da página onde a notícia pode ser lida. mas, numa murtosa moderna isso não se faz: mostra-se um boneco ilegível, diz-se onde foi feita a publicação (escreve-se o nome) e pronto. missão cumprida.

como fiquei satisfeito com a notícia e insatisfeito com o facto de não a poder ler, fui atrás dos jornais em causa: “Faro de Vigo” e “La Opinión – A Coruña”. depois de muito navegar e alguma imaginação encontrei.

Faro de Vigo: http://mas.farodevigo.es/especiales/turismo-galicia-2015?id=2177

La Opinión – A Coruña : http://mas.laopinioncoruna.es/especiales/turismo-galicia-2015?id=2177
http://ocio.laopinioncoruna.es/planes/fin-semana/pla-1878-marea-tradiciones.html

lê-se e entende-se muito bem, custa é a compreender.

é publicidade paga e quem paga tem o dever de exigir, eu, que durante alguns anos dirigi uma revista de âmbito nacional, sei muito bem como funciona este mercado: pago um anúncio e tenho direito a uma página, as condições acordam-se. tudo bem. é investimento e a murtosa merece e precisa.

não sabia, e fiquei a saber é que as comunidades piscatórias da murtosa, são o bunheiro e a torreira, entendem o bunheiro? então e a murtosa? onde ficam o bico e o chegado? foram anexados pelo bunheiro?

fala-se no moliceiro, mas nem uma imagem, uma referência às regatas da ria……

não se fala nas companhas, mas na bandeira azul do monte branco. imaginem se os galegos apanham a maré vazia…..

sabiam que a enguia é a espécie mais popular da pesca na ria? há quantos anos?

numa época em que o turista procura a diferença, a murtosa oferece os espectáculos das companhas, “o mar a trabalhar”, e as 3 regatas anuais de moliceiros que tantos turistas procuram. nem uma palavra sobre isso.

não sei quanto gastou o executivo, mas muito ou pouco, foi mal gasto. se o dessem para ajudar a manter a tradição dos moliceiros à vela …… se o dessem …..

é assim que bate o coração da ria, mal

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o executivo já parte com o mastro neste estado, que esperar dele?

(só uma nota final, não sou a oposição ao executivo camarário, essa função pertence a quem se diz ser, sou apenas um cidadão atento e que gosta da terra e das tradições que lhe couberam em herança)

os moliceiros têm vela (73)


esperar

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aprender o tempo
no contar pelos dedos

lento muito lento
o movimento

parados os olhos
imóvel o rosto
sem expressão
esperar esperar
não há primavera
nem andorinhas

aprender o corpo
no contar do tempo

o movimento
lento muito lento
até que parado

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(ria de aveiro; regata da ria; 2010)

postais da ria (71)


provocar é preciso

toda a imagem é uma pergunta por responder

toda a imagem é uma pergunta por responder

não procures no que lês
o eu que o escreveu
procura-te

aceitares ou recusares
as palavras lidas
é seres tu

será sempre morta a escrita
que não provoque no leitor
repulsa aceitação ou
no limite da comunhão o
“porque não fui eu?”

se te sentas nas minhas palavras
e adormeces
de nada serviu tê-las escrito

não me procures no que leste
procura-te porque o fizeste

o início podia ter sido assim

o início podia ter sido assim

(ria de aveiro; torreira)