postais da ria (169)


pai e filho

(ensino-te a arte
que me ensinaram
dou-te o amor
que me deram
de pai para filho)

0 ahcravo_DSC_8384 bw

o nuno (filho) enche a cabrita que o pai (nuno) segura

gostava que houvesse
futuro
por onde os meus olhos
ainda

gostava de te dizer
de pai para filho
deixo-te um amor
uma terra uma gente

mas sei
sinto
que me fico
por estas palavras
por este saber que

não há futuro aqui

0 ahcravo_DSC_8384_nuno+nuno cunha

pai e filho, a mesma arte

(torreira; junho, 2016)

pai e filho têm o mesmo nome, nuno. pai e filho partilham a arte. até quando?

postais da ria (154)


rapar a ria

0 ahcravo_DSC_4741 bw

com um balde e um pequeno ancinho, na maré vazia, nos cabeços em seco ou com pouca água a cobri-los, apanhava-se a amêijoa japónica, o berbigão.

ao longe, nada mais vês que um casal que parece passear por sobre as águas, povoando o silêncio com as suas vozes, que não ouves mas imaginas

uma paisagem belíssima, um lugar onde o silêncio se ouve e os olhos se limpam da sujidade urbana.

ajoelham-se, pousam o balde, pegam no ancinho e começam a “rapar” a lama da ria. dirias como se batatas, mas aqui, na lama, são amêijoas que colhem.

horas seguidas, tantas quantas a maré permita, que o corpo, esse terá de aguentar.

sobreviver aqui é sobre-utilizar o corpo, desgastá-lo, moê-lo, consumi-lo.

e tudo em silêncio vai pingando para os bolsos dos mesmos, dos que não estão na fotografia.

a japónica deu de comer a muita gente durante dois anos depois, num inverno mais longo e chuvoso, as águas adocicaram e morreu. dela pouco ou nada resta.

os homens e as mulheres, continuam a caminhar e a rapar a ria, são menos, a colheita é pobre, vivem do que a ria ainda dá.

0 ahcravo_DSC_4741

(torreira; 2012)

postais da ria (144)


raiva de não ser faca

00 ahcravo_DSC_9863 hc
regresso ao essencial
à dureza da rocha
ao sal colado ao corpo

ao povoamento da ria
terra de pão incerto
mãe do sorriso sofrido

o esqueleto exposto
à rudez da vida
sem molduras coloridas

raiva de não ser faca

(torreira; cabrita baixa; 2012)

quando “japónica” abundou na ria e matou a fome a muita gente

postais da ria (56)


falo de ti

os árduos caminhos do pão

os árduos caminhos do pão

admito que penses
sei que existes
e por isso deves

admito que tenhas opinião
sei que existes
e por isso deves

admito que deves
admito que penses
até admito que admitas
que eu pense que tu existes
e a tua opinião
é escrava dos teus

interesses

pesados os passos, perdidos

pesados os passos, perdidos

(ria de aveiro; torreira; cabrita de pé)

contem comigo


 

 

a cabritar no cabeço

a cabritar 

 

escritas na água
as palavras boiam nos dias
ilusão ser de terra o lugar onde
certa a incerteza

os dias não são o que
serão somente se

estendo o olhar até onde
procuro insisto e resisto
estou vivo demais
para sucumbir
arrastando desânimo pelas horas

venho de longe para longe vou
deter-me-ei tão só quando
já não for

até lá
contem comigo
de pé

 

(pesado o labor de quem da ria tira o sustento, enterrado na lama)

para ti, mãe


 

 

no cabeço da ria, dois homens cirandam (joeiram) ameijoa. longe de mim e eu deles

no cabeço da ria, dois homens cirandam (joeiram) ameijoa. longe de mim e eu deles

 

no joeirar do tempo
não encontro nenhum dia em que
o teu nome se não inscreva
dizer-me é dizer-te
ser é seres

a nitidez seria ficção
neste reler agora dos percursos
os anos somaram-se e nós neles ainda
cada vez mais carregados de memórias
risos lágrimas beijos ternura atritos
ilusões e desilusões

somos tudo
porque tudo fomos sendo
a perfeição fica para quem mentir
é uma certa forma de reinventar o passado
e (desen)cantar o amor

ofereço-te os sorrisos
e vou guardando as lágrimas
certamente não serei o que quererias
que tivesse sido

mas não é isso
o que acontece entre o filho que se fez
e o que a mãe para ele sonhou ?

ouve mãe: eu sou

hoje morreu gabo e não morreu


cabrita de pé nos cabeços da ria

o tempo gabriel
o tempo
o tempo que tu tão bem
construíste e desconstruíste

algures  na floresta de maconde
um coronel
mortes anunciadas
(a tua a nossa a de todos)
cem anos
putas tristes
quantas histórias
fantasticamente reais
os buendia sempre

o tempo levou-te
o tempo
de estares aqui gabo

a névoa envolve tudo
a labuta dos dias da escrita
dos jornais dos livros dos editores
das palavras
gabo

por entre uma outra névoa
três homens arrancam da lama da ria
com que sobreviver nesta terra
nunca te leram
não sabem quem és

mas foi para eles
foi por eles que escreveste

abraço gabo

(torreira; cabrita de pé nos cabeços)