não é fácil
escrevo a direito
por isso recebo tantas
respostas tortas

quando a companha é a família
(torreira; cirandar; 2016)
não é fácil
escrevo a direito
por isso recebo tantas
respostas tortas

quando a companha é a família
(torreira; cirandar; 2016)
‘miga
hoje no mercado de buarcos
fui abraçado por uma palavra
‘miga
conheci-a em setúbal
no bairro das fontaínhas
onde murtoseiros pescadores
quando a ouço regresso
aos tempos de eu menino
às vozes que pela ladeira
‘miga
diziam antes de começar
qualquer conversa
tempo em que todos
eram amigos e camaradas
por isso entre pescadores
‘miga
mais que a ouvir senti-a
há palavras assim
que nos chegam como se
um abraço

a bela e o jim cirandam berbigão
(torreira; cirandar)
até um dia

por sob a claridade
habitam o silêncio
o obscuro domínio
(diria eugénio)
refúgio de
ratos e similares
alimentam-se bem
do outro e do seu esforço
caminham seguros
mandam e desmandam
mais que fazer
fazem-se
até um dia

(torreira, cirandar, 2016)
com palavras

lavo as feridas
com palavras
escrevo-me
conto-nos
o fim é outro
início
com palavras
lavo as feridas
(torreira; 2016)
dúvida

a linda e o trovão cirandam ameijoa, sem qualquer dúvida
as palavras saram
as feridas do silêncio
ou
será o contrário
(torreira; 2016)
irei até onde com o que

ciranda de dois, amigos todos
tudo é de novo início
tardio mas início
escasso o tempo
desgastado o corpo
cirandado pelo tempo
caminho
caminho
caminho
o que resta de mim
sonhos por cumprir
irei até onde com o que
(torreira; cirandar)
poderia

ciranda de dois ( ou será de casal?)
poderia escrever
os nomes dos barcos
dos homens das mulheres
dos ganhos das perdas
das artes das artimanhas
da compra da venda
dos contratos doutros tratos
poderia
mas deixo para ti
esse caminho doloroso
que já percorri
também tu
deves aprender
como se vive por aqui
(torreira; cirandar; 2016)
mesmo se longe

o salvador belo e a ciranda de um
mais que os barcos
mais que a ria
mais que a beleza
que em tudo respira
os homens as mulheres
os que vivem os dias
sem saber de horas
férias feriados
que só sabem
de encomendas
de interdições
de marés
do que por vezes
não sabem por quanto
falo dos meus amigos
e do respeito
que por eles tenho
mesmo se longe

é duro, é muito duro
(torreira; cirandar)
o real no virtual

amanhã
quando falarem de mim
ou me esquecerem
como é normal
que fiquem estas imagens
de um tempo
de uma gente
de um modo de vida
a minha memória
será então
não um nome
mas o que ficou
espalhado
nas redes sociais
num mundo virtual
onde o real resiste
sem fronteiras
(torreira; 2016)
carta

quando o barco é o camarada
sabes a quanto vendem os pescadores
o quilo de choco?
de linguado?
de berbigão?
de ameijoa?
de mexilhão?
de linguado?
sabes quantas horas de ria
para apanhar nunca se sabe quanto
embora se saiba a quanto?
quantas horas a safar redes?
quantos euros em gasolina?
quantas idas à fisiatria?
quantos dias de férias?
quanto ao fim do ano?
procura as respostas
encontrarás o labor
por detrás das bateiras adormecidas
e farás dos teus postais
um hino aos homens e às mulheres
que todos os dias
todas as semanas todo o ano
deixam na ria o corpo
pedaço a pedaço
se mal pagos são
pelo que do corpo lhes sai
sejas tu a cantá-los
quando pela madrugada
ou ao fim do dia
lhes fotografas os barcos
e
nos enches de espanto
(torreira; 2016)