
pudessem as mãos
chorar
seriam delas as lágrimas
também

pudessem as mãos
chorar
seriam delas as lágrimas
também
desabafo

mãos de fazer, mãos de dar, mãos de ser
melhor não escrever nada
estou engasgado de sentir
as palavras come-as
o tanto
tenho para mim
que o que fiz
sempre que o fiz
foi por bem
mesmo se errei
ao fazê-lo
por isso
me dói
calo calco
não mereço
não mereço
não mereço
escrevi
como se o tempo
esfarelado
por entre os dedos

(torreira)
do medo

por entre os dedos
a corda dos dias
correu
agarrei o que pude
como soube
aprendi
tudo é nada
rente ao mar
o que foi continuará
a engrenagem
funciona
gorduroso o medo

(torreira; 2016)

eis as mãos
eis a faina o labor
de haver mar

(torreira; 2016)