vive

quando o longe se faz perto
e estás onde estiveste
quando o tempo se apaga
e és o que já foste
então a imagem é tua
mesmo se por outros olhos
vê e sente
ouve e sê
tudo está aqui
para ti
vive
(torreira)
vive

quando o longe se faz perto
e estás onde estiveste
quando o tempo se apaga
e és o que já foste
então a imagem é tua
mesmo se por outros olhos
vê e sente
ouve e sê
tudo está aqui
para ti
vive
(torreira)

como se numa dança
por entre as mãos
se faz o caminho da rede
(torreira; 2016)
estranho sabor

as mãos acabam
onde tudo começa
ou será o contrário?
na areia da praia
à torreira do sol
ardem palavras
uma gaivota passeia nas redes
faz a última limpeza
come
as mãos continuam
o princípio e o fim
no côncavo da palma
cheguei de mãos vazias
parto de mãos amargas
estranho sabor
a gaivota levantou voo
juntou-se ao bando
por momentos existimos
(torreira)
para o menino bonito

o meu povo trabalha duro
não tem tempo para brilhantinas
ordenados milionários
viagens em classe executiva
o meu povo
os copos que bebe
saem-lhe do corpo e sabem a sal
o meu povo
tem direito a ser respeitado
por todos
em especial pelos gravatinhas
que não o conhecem
nem falam a sua língua
o meu povo
respeita todos os povos
porque todos os povos
são o meu povo
o meu povo
tem a sabedoria dos dias de parca paga
que reparte com as mulheres
e os filhos
o meu povo
está cansado de meninos bonitos
com muita escola e poucos princípios
o meu povo
convida o menino bonito
para um dia de trabalho
milagres

torreira
todo o inexplicável
ir-se-á explicando
entretanto
florescem milagres
nos jardins dos incréus

a safar caranguejo, vejam-se as mãos comidas de sal
actualmente na torreira a pesca aos chocos e aos linguados faz-se utilizando a arte “solheira”, cuja estrutura se encontra legislada nos seguintes termos:
“descrição- rede de emalhar de três panos (tresmalho) fundeada
características:
– comprimento máximo da rede 500m
– altura máxima da rede – 60cm
– malhagem mínima do pano central – 100mm” (já reduzida para 80mm)
o nome da arte advém do facto de ter servido em tempos para a pesca da solha, peixe muito abundante na ria e que com o desaparecimento do moliço, se tornou espécie rara.
na torreira à totalidade da rede chama-se “andar” e às porções de que se compõe “rede”.
cada “rede”, ou “ração”, ou “caçada”, custa 67 euros, sendo necessária para construir um “andar”, pelo menos 16 redes, ou seja, um “andar” custa 1.072 euros.
para trabalhar é necessária uma bateira, com a seguinte estrutura:
– 12 cavernas
– 7,5 m de comprimento
– 1,80m de boca
– 45cm de pontal
a bateira custa cerca de 3.000 euros e é accionada por um motor de 8 cv, no valor de cerca de 2.500 euros.
ao conjunto de apetrechos com que uma bateira deve ser dotada para passar na vistoria, chama-se “parlamenta” e custa cerca de 500 euros.
anualmente é necessário proceder a uma vistoria, que custa cerca de 80 euros, para efeitos de renovação de licença, a qual só é renovada se o pescador tiver declarado o mínimo de 5.000 euros de pescado na lota.
ou seja, e para concluir, somando as parcelas, os custos fixos para o exercício da arte, orçam em 7.150 euros .”
durante o ano de 2010 fui várias vezes ao rio largar e alar redes com pescadores da torreira, de alguma idas ficaram registos fotográficos, doutras vídeos. não houve um pescador a quem tenha pedido para ir com ele, que me desse uma nega, por isso é a todos os pescadores da torreira que dedico estes registos.
os momentos mais dolorosos e custosos são o alar e o safar das redes, é desses momentos que tratam os vídeos que aqui mostro.
as redes são largadas no fim da enchente e aladas, em princípio, no início da vazante. a bateira fica “atravessada” e, para não ser arrastada pela maré, é lançado à ria, do lado de “cima”, um peso ao qual fica amarrada.
o esforço da alagem é notório nos registos.
em média as redes ficam cerca de uma hora na ria. podem ficar mais, depende do pescador, do local onde largar, se há muitas algas na ria ou o sítio é rico em peixe (por costume) mas também em caranguejo.
por vezes uma hora na água, dá várias a safar. se for caranguejo então são as ferradelas, os rasganços nas redes e trabalho dobrado.
não é invulgar uma hora na ria, uma tarde a safar
(nota : procurei nalguns destes registos não fazer corte de tempos que “parecem” mortos. fica à responsabilidade de quem o vir, segundo a sua sensibilidade e ligação à ria, fazer os cortes que achar por bem – acelerando, por exemplo, durante alguns momentos a passagem do vídeo e voltando ao normal quando o entender.
que corte quem vê e não quem faz é o meu critério neste tipo de registos.)
(torreira; 2010)
as mãos que não vês

as mãos do agostinho
mãos vazias
esculpidas pelo cinzel
do tempo
mãos de não ter havido
herança basta
apelido sonante
mãos salgadas
de tanto mar tanto suor
tanto serem
mãos com voz
mãos nossas ignoradas
mãos silenciadas
mãos mãos mãos
quantas na mesa o peixe
a carne o pão o vinho
mãos com rosto
mãos mãos mãos
olha as mãos
que não vês
(torreira; 2013)
utensílios primordiais

utensílios primordiais
a navalha e o bordão
no repartir do trabalho
e do seu fruto
as mãos são
as mãos de tantos quantos
para além delas
habitam o tempo
gravado no bordão
escrita sábia esta
sem palavras
escultura elementar
em louvor dos dias
parto e já não sou tão pouco
sou mais um
vejo para além do que vejo
cresci
ganhei o mar que pressinto
para ser barco homem memória
(torreira)
onde a gulha?

faz-se o nó
emenda-se a corda
assim se unissem
os homens
como as mãos
no fazer
onde a agulha?
(torreira)
palavras amarradas

quase ternura
está cheio o baú
de palavras por dizer
o silêncio são palavras
amarradas
(torreira; 2014)