os moliceiros têm vela (91)


o insuportável peso da luz

assim vejo

assim vejo

o que nos separa é o essencial
isso só se torna evidente se
sobre o branco inscrevermos
o traço exacto das fronteiras
onde os desejos se dividem

fundamental reduzir o acessório
à sua verdadeira dimensão
dispensável

a luz tudo atravessa para se
fazer dia

assim te iludo

assim te iludo

(torreira; regata do s.paio; 2010)

os moliceiros têm vela (88)


é

o  moliceiro a. rendeiro do ti zé rebeço é o primeiro

o moliceiro a. rendeiro do ti zé rebeço é o primeiro

recuso as palavras redondas
nascidas
de bocas onde muitas línguas

só conheço o caminho agreste
parco de sombras
linha recta entre hoje e o devir

prefiro a fresca água das fontes
às bebidas finas das mesas grandes
onde banquete é fome de muitos

recuso os cemitérios de vivos
não é fácil nem difícil
é

quem disse que ganhar é fácil?

quem disse que ganhar é fácil?

(ria de aveiro; regata da ria; 2014)

os moliceiros têm vela (83)


da aprendizagem

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o poeta menor
sentou-se na soleira
do poeta maior

na pedra fria da porta
colheu as pegadas do mestre

procurou palavras sentires
saberes da escrita
que admirava e não atingia

o poeta menor
levantou-se da soleira
do poeta maior
e tinha o rabo gelado

nada mais aprendera
que a frieza da pedra

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(ria de aveiro; regata da ria; 2010)