vivo de

achegar
se me vires a sorrir
quando caminho
é porque há um outro
dentro de mim
jovem ainda cheio de
tudo por fazer
vou com ele por aí
vivo de sonhar-me
(morraceira; achegar; 2016)
vivo de

achegar
se me vires a sorrir
quando caminho
é porque há um outro
dentro de mim
jovem ainda cheio de
tudo por fazer
vou com ele por aí
vivo de sonhar-me
(morraceira; achegar; 2016)

morraceira, rer, 2016
o brilho do sal
súbito
tudo é nada
do pouco
que na mão
num sopro tudo
se foi
a memória resiste
onde o presente
abraça o espanto
uma mão parada
no tempo
ainda te acaricia
no brilho do sal
a luz refaz-se
para ser sol
só
no brilho do sal

(morraceira; rer; 2016)
dúvida
aos que não vêem
chamam cegos
aos que julgavam
ter visto
o que chamarão

(morraceira; tirar; 2016)
há muitos futuros
o fim da ilusão
não mata a memória
enterra um futuro
na salgadeira a carne
esperava o verão
o cozido à portuguesa
a couve do quintal
a água do poço
o frango da capoeira
já não há enguias na ria
à limpidez dos dias
nos olhos nos afectos
sabores e saberes
regresso sempre
eis agora do sal a beleza
tempero de outros dias
há muitos futuros

(morraceira; rer; 2016)
herança
dou-te o que me deram
serás não o que fui
mas mais muito mais
que doutras artes
mestre serás
serei em ti
a memória do gesto
do saber antigo
doutras vidas
herança de saberes
a que te deixo
farás por mim sal

(morraceira; 2016; rer)
é tarde
é tarde
é sempre tarde
depois de

(morraceira; rer; 2016)