a beleza do sal (37)


tenho sede

tenho a boca seca
de tantas palavras
e tão pouco nelas

como são pequenas
querendo ser algo
intenção apenas

um copo de água
um abraço
um ombro onde

escreva o poeta
poemas
eu quero gestos

tenho sede
da que se mata
com água

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(armazéns de lavos; achegar; 2017)

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a beleza do sal (36)


há muitos futuros

o fim da ilusão
não mata a memória
enterra um futuro

na salgadeira a carne
esperava o verão

o cozido à portuguesa
a couve do quintal
a água do poço
o frango da capoeira

já não há enguias na ria

à limpidez dos dias
nos olhos nos afectos
sabores e saberes
regresso sempre

eis agora do sal a beleza
tempero de outros dias

há muitos futuros

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(morraceira; rer; 2016)