diálogo com álvaro de campos

“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”
nem isso álvaro
nem isso

(torreira; 2013)
diálogo com álvaro de campos

“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”
nem isso álvaro
nem isso

(torreira; 2013)
de mim

a minha terra
é o mar

(torreira; 2010)
vencer os dias
vencer os dias
como se degraus
caminhar contra
caminhar sempre
a dúvida por vezes
o cansaço
desistir é tão fácil
o caminho vai longo
duras são as pedras
que mordem os pés
vencer os dias

(torreira; 2013)
para os devidos efeitos

quando eu morrer
não entreguem à terra
um corpo que sempre foi de mar
quando eu morrer
uma gaivota levantará voo
uma onda morrerá na praia
nada de anormal
são coisas que estão
sempre a acontecer
como
quando eu morrer

(torreira; 2010)
estórias da berma da estrada *

se livro houvera
seria o título
disseste-me
conheço-te e
muitas estórias tuas
sei que
não haverá livro
porque
o título já o é
(* título roubado ao meu irmão domingos augusto)

(torreira; 2010)
“Os intérpretes de vidas
…. Até que ponto podemos fiar-nos nos nossos amigos e conhecidos e sócios, nos nossos amores, nos nossos pais e nos nossos filhos? Quais as suas tentações e debilidades, ou o seu grau de lealdade e a sua fortaleza? …. E mais ainda: podemos prever que amigos vão virar-nos as costas um dia e converter-se em nossos inimigos? …. Podemos fiar-nos em nós, em que não seremos nós que mudaremos e nos viraremos e atraiçoaremos, que invejaremos um dia quem hoje mais amamos e não poderemos suportar o seu contacto nem a sua presença, e decidiremos reger-nos só pelo nosso ressentimento? …… “
(in Javier Marias, “O teu rosto amanhã”, 3º volume, “ Veneno e sombra e adeus” )

depois de muita luta o barco ganhou o mar e fez o lanço
(praia de mira; 2010)

depois de muita luta o barco ganhou o mar e fez o lanço
então farão postais

vêm de longe as vozes
conheci algumas
respeitei muitas
conheci-os um pouco
homens mulheres
gente desta terra
de onde sempre
para o mar se partiu
e onde nem sempre
se regressou
ficou o mar
na areia varados
o barco e a arte
a companha renovada
até um dia
em que na praia vazia
deles só a areia
se lembrará
então farão postais

(torreira; 2016)
c.p. 3870-155

o mar não é falso
é da sua natureza imprevisível ser
falsos serão os que
quando deles se espera que homens
coisa de fraco valor se revelam
por tão pouco se venderem

(torreira; 2016)
o tamanho dos homens

os homens têm o tamanho
inverso dos seus medos
se o medo do mar
os faz grandes
o medo dos homens
os faz pequenos
fui ao mar em terra
e vi -lhes o tamanho

(torreira; 2016)
da leitura

tivesse eu lido
o homem
como o homem
lia o mar
soubera eu

(torreira; 2016)