poema com eco (08/03/2011)

poema com eco (08/03/2011)


plantei uma flor
no mar

sentada a meu lado
os teus olhos
procuravam a flor
e sorriram ao vê-la fulgir
por entre as ondas
deste-me então um beijo

depois acordei
e só me lembro
deste sonho
sentada a teu lado
dera-te o beijo
aromatizado
com a flor orvalhada
pelas ondas que a embalaram
nos teus sonhos

depois acordaste
e envolvi-te
no perfume que deixei
ao teu lado da flor
que meu sorriso percorreu
por entre as ondas
para só te lembrares
deste sonho

não às guerras


odeio a violência em qualquer
geografia ou contra qualquer raça
toda a guerra longe é um horror perto
toda a guerra perto é um horror 
que quereria imaginar nunca

europa ásia áfrica américa
são a minha casa o meu povo
habita todos os territórios

eu sou as minhas palavras
assumo os meus actos
em tudo sou pequeno mas 
tenho orgulho do meu tamanho

odeio as guerras e os seus senhores
a força e o seu exercício despudorado
os tacticistas e os oportunistas

hoje putin ontem quantos
amanhã quem onde

não me indigno porque é no meu bairro
mas no meu mundo são os meus irmãos

entre o escrever o dizer e o estar
onde tu

(figueira da foz; 26/02/2022)
eu por mirco bompignano

parabéns zeca afonso


(porque hoje o zeca faz anos e nunca é demais repetir o que já escrevi em tempo)
amigo
serás sempre maior que o pensamento

tu que cantaste maio
e foi numa madrugada de abril
tu que foste a toupeira
e cantaste o sol e nos levaste a agarrá-lo

amigo
serás sempre maior que o pensamento
as tuas palavras a tua voz
são ainda tu aqui agora

sempre
duas sílabas um nome 
um grito uma canção um protesto
uma revolta um princípio 
uma alavanca um não desistir
aqui agora sempre

amigo
serás sempre maior que o pensamento
30 anos depois
não há depois
há o futuro todo

amigo
serás sempre maior que o pensamento

a beleza do sal (129)


no sal a memória do sol e do mar

armazéns de lavos
estalam-me na cabeça
os tufões medonhos do atlântico sul
rebentam-me nos olhos
as calemas de março
o simoun enche-me a boca
de areia e raiva

lambem-me o sexo
as chamas que no verão
devoram pinhais e searas
tremem-me as mãos
sinto nos dedos os abalos de agadir

mergulham ante meus olhos horrorizados
todos os passageiros do titanic
o amazonas corre-me nas veias
ribombam-me no coração
as cataratas do niagara
os ouvidos rebentam-me
com a pressão dos grandes rios
a entrarem no mar

o corpo arde na fogueira
possesso de um demónio
inventado pela inquisição

todo eu tremo ante tanto desvario
e tudo se conjuga
no rodopiar do carrossel louco
desta cabeça
que não sei se é minha
mas que pesa
como se fosse o mundo 
armazéns de lavos