sou nada
serei sempre nada
prazer
de ser assim
(xávega; aparelhar; praia da leirosa; 2019)
lembro-me da terra
à segunda a feira
dos fabricos caseiros
do quintal e da capoeira
as contrafacções e os bons preços
os vendedores a apregoar
vi um na assembleia
a negociar
hábitos de feira
a régua e esquadro traçadas
as ruas numeradas
a linha de caminho de ferro
e o mar do outro lado
o jogo e unamuno
as férias o verão
os pescadores
nunca ali vi o sol pôr-se
só lhe sei a cor de dia
nunca o vi verde
(recriação da xávega com bois; silvalde; espinho; 2012)
escreve com um machado
essa arma medieva
no pulso presa
decepava cortava
mutilava indefesa gente
escreve com um machado
essa ferramenta de lenhador
no abate das grandes árvores
cortar lenha para o inverno
afiado gume funda ferida
escreve com um machado
bela metáfora para
a navalha de ponta e mola
língua bífida de víbora bípede
(xávega; ir ao mar; largar o reçoeiro; torreira; 2014)
em louvor dos críticos
contava meu pai
que um amigo aposentado
se dedicou a uma
quinta que tinha no norte
cada amigo que o visitava
deixava um conselho
sobre como cuidar da terra
todos tinham opinião
cansado o aposentado
colocou na entrada da quinta
um letreiro onde se lia
aceitam-se conselhos
não de quem saiba mais
mas de quem tenha feito melhor
foi o fim dos conselhos
se ele se tivesse dedicado
à poesia escrito estava
o seu melhor poema
eu que leio muito
e sou miudinho na leitura
que olho com olhos de fotógrafo
e oiço com ouvidos de tísico
penso
ah aposentado que ainda estavas
ao serviço
(xávega; saco seco vai para o carro; praia da leirosa; 2019)