crónicas da xávega (597)


lembro-me da terra

à segunda a feira
dos fabricos caseiros
do quintal e da capoeira
as contrafacções e os bons preços
os vendedores a apregoar

vi um na assembleia
a negociar
hábitos de feira

a régua e esquadro traçadas
as ruas numeradas

a linha de caminho de ferro
e o mar do outro lado

o jogo e unamuno
as férias o verão
os pescadores

nunca ali vi o sol pôr-se
só lhe sei a cor de dia
nunca o vi verde

(recriação da xávega com bois; silvalde; espinho; 2012)

crónicas da xávega (596)


escreve com um machado
essa arma medieva
no pulso presa
decepava cortava
mutilava indefesa gente

escreve com um machado
essa ferramenta de lenhador
no abate das grandes árvores
cortar lenha para o inverno
afiado gume funda ferida

escreve com um machado
bela metáfora para
a navalha de ponta e mola
língua bífida de víbora bípede

(xávega; ir ao mar; largar o reçoeiro; torreira; 2014)