das palavras


visto-me de palavras
de palavras ando
que de palavras me fui fazendo
sem saber se muitas
se poucas
apenas pelo prazer de

para o dia a dia
camisa garcia márquez
calças eugénio de andrade
sapatos sophia de mello breyner
um bruto carro
antónio lobo antunes

para a praia
polos marca vinicius
calções de banho drummond
chapéu faulkner
toalha miguel angel asturias

de inverno
impermeável proust
meias prévert
e você manuel bandeira
junto com zé gomes
aquecem os meus dias

óculos
esses não dispenso 
para ler as marcas da roupa que visto
então só mesmo se forem fernando pessoa 

(coimbra; baixinha)

a minha ria


é esta a minha ria
a da sobrevivência
das artes
aqui
homem e mulher
são camaradas
em tudo
iguais

o pão que comem
colheram-no
ambos
da mesma fonte
 
é esta a minha ria
a da resistência
da solidariedade
a que nem todos vêem
a que alguns mataram conscientemente

mas que é
a mais bela ria
do mundo

(murtosa; cais do chegado; carregar caranguejo)

do poema e de ti


do fogo

desenha uma letra
fá-lo com ternura
as letras
são sensíveis
muito

uma a uma vai-as desenhando
e juntando
como se fossem esqueleto
de coisa viva
as palavras são

há música
quando lentamente
soletras as palavras
a que as letras deram corpo
vês têm vida as letras

ouves-te no que lês?
és tu por dentro delas?
cada vez mais vivas
as palavras sorriem-te
como ninguém o sabe

estás mais leve
disseste-te
temes porém
o não teres sido ainda
é esse o encanto
da vida

(buarcos e era natal)

as mãos ainda e sempre


falo agora de outra escrita
de outras letras
de outras linhas
de outro poema
da vida

ainda e sempre
as mãos
serão destino dos olhos
construtoras de caminhos
e carícias
fábricas de pão
fêmeas
 
rudes e ásperas
ternas e solidárias
as mãos
rasgadas pelos sulcos
da ria
do mar
da terra
 
são ainda mãos
mães de pai de mãe
de dar
as mãos
 
olho-as
guardo-as no fundo de mim
para tas ofertar
como se oiro
como se sol

as mãos

(torreira)

cultura avieira e Projecto Comenius – We Are What We Eat (WAWWE)


A Escola Profissional do Vale do Tejo de Santarém (EPVT) promoveu um encontro de alunos e de professores de várias escolas da União Europeia, no âmbito do desenvolvimento do Projecto Comenius – We Are What We Eat (WAWWE) que visa debater hábitos alimentares saudáveis nas escolas.

No âmbito da temática “Gastronomia enquanto agente identitário das comunidades” foi o Projecto da Cultura Avieira convidado para fazer uma apresentação do seu ideário e dos seus objectivos, no decurso dos trabalhos deste encontro internacional, que juntou comunidades de Portugal, Bélgica, Grécia, Itália e Polónia.

Dessa acção vos damos conta na presente Folha Informativa.

 

O gabinete de coordenação

(Projecto de candidatura da cultura Avieira a património nacional imaterial e da Unesco)

FOLHA Nº15-2012_O projecto educativo europeu Comenius e a cultura Avieira

barco de mar


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sábias mãos
do mar conhecedoras
foram concebendo o barco
a pedido
que é o mar que pede o barco
que o homem pede ao mestre

de mestre a aprendiz
de geração em geração
do diálogo entre mar e homem
homem e mar
o barco cresceu e diminuiu
transformou e se faz
 
engenharia esta de mestrança
onde o cálculo não de régua
mas de pau de pontos
e as peças de moldes herdados
 
que o mar pede o barco
que o homem o sente e o ajusta
que o diálogo o fez
 
barco de mar
do mar da nossa costa ocidental
da pancada
da onda
da mão

(torreira, 2009)

florbela espanca_certidão de baptismo e inédito


certidão de baptismo de florbela espanca

“Verifica-se, por esta certidão, que a Poetisa nasceu em 1894, e não em 1895, como alguns biógrafos assinalam”

(assim consta da nota de rodapé inserta)

foto tirada de:

http://auladeliteraturaportuguesa.blogspot.pt/2010/04/florbela-espanca-perfil-literario.html

um manuscrito inédito, na contra capa da edição de “Sonetos”, em 1960, pela Livraria Tavares Martins

há mulheres aqui


ti miguel bitaolra e rui rapina
dão-se as mãos
dão-se as gerações
no amor ao mar
cresce-se com ele
dentro

atado aos pulsos
marcado nos rostos
salgando os pés
gatinhando na areia
 
no mar se fazem homens
no barco a iniciação das ondas
baptismo a pedido
há mulheres aqui
há mulheres aqui

no esticar da corda
no esforço conjunto
há mulheres aqui
onde a terra acaba
mas os homens não
 
há mulheres aqui

(torreira, 2007)