crónicas da xávega (590)


em louvor dos críticos

contava meu pai
que um amigo aposentado
se dedicou a uma
quinta que tinha no norte

cada amigo que o visitava
deixava um conselho
sobre como cuidar da terra
todos tinham opinião

cansado o aposentado
colocou na entrada da quinta
um letreiro onde se lia

aceitam-se conselhos
não de quem saiba mais
mas de quem tenha feito melhor

foi o fim dos conselhos

se ele se tivesse dedicado
à poesia escrito estava
o seu melhor poema

eu que leio muito
e sou miudinho na leitura
que olho com olhos de fotógrafo
e oiço com ouvidos de tísico
penso

ah aposentado que ainda estavas
ao serviço

(xávega; saco seco vai para o carro; praia da leirosa; 2019)

postais da ria (545)


que metáfora
para o sniper que alveja
uma criança indefesa
uma mulher que leva o filho pela mão
um homem que caminha

que metáfora
para o tiro certeiro
no peito na cabeça
para o assassínio preciso
sorridente impune de safari

que figura de estilo
para a terraplanagem 
o apagar da memória
o que tanto foi

que metáfora
para o genocídio impune
realimentado em dólares
e silêncio acomodado

que figura de estilo
falta ainda inventar 
porque tudo surpreende
quando pensávamos
já ter visto tudo

que metáfora
para esta merda de tempo
em que vivemos

(bateiras; torreira; 2013)

os moliceiros têm vela (561)


desejo-te tudo o que 
não me desejaste
mas gostarias de ter
desejado se

e são tantos os ses
para o não teres feito
tantos os ses que aceito

e desejo-te
sinceramente desejo

tudo o que
não me desejaste
mas gostarias de ter
desejado

(moliceiros; regata do emigrante; cais do bico; murtosa; 2010)