postais da ria (178)


boas fotos

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chegaste agora
não sabes os nomes
não conheces as histórias
trazes contigo uma máquina de fotografar
olhas e encontras o motivo

disparas repetidas vezes
gostas do que viste e registaste
ignoras tudo o que para além do registo
desfrutas do olhar e sorris
quando lês o exif

e se
a perspectiva real for inversa da registada ?
e se
aquele homem ao fundo tiver nome ?
e se
o que ele traz no braço for parco para tantas horas
de esforço quase insuportável ?

e se
em vez de olhares e fazeres (digo eu)
um registo interessante de perspectiva
procurasses respostas para o que registas ?

então
não estarias aqui de férias em busca de imagens
serias mais um na comunidade e isso
meu amigo aqui pode ser perigoso

boas fotos

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(torreira; junho; 2016)

os moliceiros têm vela (223)


a fotografia, a tradição, a memória e os interesses

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a limpidez da memória no registo do momento

não há nada pior que um povo sem história, não é povo sequer. e o que é a história senão o somatório das memórias preservadas?

a fotografia é, desde que surgiu, mais um instrumento de construção da história, porque produtora de memória, com a relevância de ser um registo visual e de impacto.

desdenhar da fotografia é desdenhar da história e da memória. é desdenhar do povo e da sua cultura.

sujar o campo visual da reconstrução da memória é sujar a memória do registo intemporal, quem dera, do momento.

entendam agora porque sou contra o acompanhamento da “regata da ria” por praticantes de kite surf: sujam a memória, impedem o registo limpo de um tempo recuperado.

virá o tempo em que perguntarão porque se estragaram momentos tão belos. mas será tarde para impedir a ganância de alguns, a ignorância de outros, a falta de cultura de muitos e a indiferença da maioria.

poderíamos cantar aqui, assim: assim se desfaz portugal!

0 ahcravo_DSC_1442_regata bico 2012, a partida

é tão frágil esta beleza perante a ignorância

(murtosa; regata do bico; 2012)

crónicas da xávega (154)


dar voz a quem

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saco seco, sacudido, para cima da zorra

a fotografia aos fotógrafos
a poesia aos poetas
nada mais vos quero deixar
que a memória das gentes
as palavras do que sinto
sou ou tento ser

tenho a noção
do quão pouco valho
mas não seja por isso
que nada faça

como esta gente carrega
as redes que ao mar se hão-de fazer
também eu dou o que tenho
sabendo que mesmo pouco
falta fará que seja feito

leio vejo escuto
com nada fico
se tenho dou reparto
migalhas sejam
como estas

pão à mesa de quem
não tem voz

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a companha são todos

(torreira; companha do marco; 2015)

povo que lavas no rio


 

o meu povo

 

na água fria
os dedos mergulham
gretados dedos
mãos brancas
mais que a roupa
que lavam

o tempo foi
o tempo voltou
o meu povo
volta a lavar no rio
de lágrimas feito

(a electricidade sobe 3,8%
mexia mexe-se na cadeira
pensa no prémio, satisfeito)

na pedra a roupa
o sabão por sobre ela
arranha, e não rasga
limpa as nódoas de um dia
a dia cada vez
mais negro

o meu povo
tem os dedos gretados
e vê passar os carros
com os olhos que nas costas
lhe inventaram

as mãos e os peixes, pão são


as mãos e os peixes

 

de joelhos na areia
curvados sobre o pão
do mar
as mãos
sempre as mãos
separam, apartam, cuidam de
se não picar na lacraia
peixe-aranha
cuidam
mas não param
ágeis, frágeis, rudes
mãos de peixe
mãos de pão

mãos de homens de mulheres
de joelhos no chão

(praia de mira, companha do zé monteiro)

manuel castelhano. presente!


 

manel castelhano

ser pescador aqui
é viver da fome do mar
é chamar turista

a estrada larga alcatroada
não mereceu nome de ninguém
ficou só “ circunvalação“

assim se destrói a memória
da xávega
com alcatrão

vendem-nos
a imagem no postal
para nos matarem
no local

( o manel já navega noutros mares, aqui continua a ir ao mar.

falo da torreira)

dos moliceiros


outros ...

 

estão ali
deitados
à babugem da maré
no lodo do seco
onde antes areia
água límpida

aguardam
o acordar
o até sempre
a regata
o apodrecimento

a pátria dos moliceiros
mátria não é
cada vez mais nem de carpideira
estatuto terá

estudemos pois
como é nossa tradição
os que vão morrer
a quem só falta o circo
e césar para saudar

(torreira- monte branco)