vai
corre pelos campos
senta-te à sombra das árvores
bebe nas ervas o orvalho matinal
procura-me
onde o céu é mais azul
e o sol acorda mais cedo
não cortes
na primavera
as flores
de joelhos na areia
curvados sobre o pão
do mar
as mãos
sempre as mãos
separam, apartam, cuidam de
se não picar na lacraia
peixe-aranha
cuidam
mas não param
ágeis, frágeis, rudes
mãos de peixe
mãos de pão
mãos de homens de mulheres
de joelhos no chão
(praia de mira, companha do zé monteiro)
ser pescador aqui
é viver da fome do mar
é chamar turista
a estrada larga alcatroada
não mereceu nome de ninguém
ficou só “ circunvalação“
assim se destrói a memória
da xávega
com alcatrão
vendem-nos
a imagem no postal
para nos matarem
no local
( o manel já navega noutros mares, aqui continua a ir ao mar.
falo da torreira)
estão ali
deitados
à babugem da maré
no lodo do seco
onde antes areia
água límpida
aguardam
o acordar
o até sempre
a regata
o apodrecimento
a pátria dos moliceiros
mátria não é
cada vez mais nem de carpideira
estatuto terá
estudemos pois
como é nossa tradição
os que vão morrer
a quem só falta o circo
e césar para saudar
(torreira- monte branco)
pouco a pouco
recuperam do passado os rostos
a memória
também ela se vai gastando no refazer de caminhos
os nomes
esvaem-se no tempo
como é que se chamava o nosso sargento ?
do que ontem ardia
hoje apenas algumas cinzas
o vento dos dias
pelo tempo a memória espalhou
são três
e à mesa do café jogam
cartas velhas de sebo
batotas antigas de casernas rancho marchas
lembras-te ?
são três e recordam
e assim se unem os velhos
depois de se ter tirado todo o peixe do saco, de o limpar bem e sacudir é preciso carregá-lo na zorra ( espécie de trenó para areia), para o levar para seco, estendê-lo na areia e deixá-lo a secar.
depois de seco estará pronto a ser de novo carregado no barco (aparelhar) e a iniciar nova faina.
o transporte é sempre feito por recurso à zorra.
assim é na torreira, na praia de mira o esforço é feito por um tractor com um braço grande e colocado o saco num atrelado.
de praia para praia as técnica mudam. as designações também. falamos de designações, práticas e experiências que variam de praia para a praia, embora a arte de pesca seja a mesma e em pouco mudem os procedimentos
os velhos atravessam o tempo de memória com mão ágil lágrima grossa regressam os velhos caminham caranguejos lentos medusas de horas e anos os velhos ajoelham calos e varizes nas pedras gastas do passado os velhos contam histórias antigas sabedoria de séculos os velhos afagam as crianças macias as mãos grossas magras ossudas os velhos arrastam-se e caem cansadas as pernas fechados os olhos os velhos às vezes já estão mortos outras morrem ainda mais velhos os velhos vivem e recordam e não vivem e recordam ainda os velhos já foram por isso são
vieram do furadouro pescar para os mares da torreira.
estabeleceram-se ao sul do molhe sul. o arrais, conhecido na torreira por “chico de ovar” é da família giesteira do furadouro, responsável pelo reerguer da xávega em medados do século XX na praia do furadouro.
o chico, não me canso de o repetir, é o melhor arrais que alguma vez vi trabalhar.