dos moliceiros


outros ...

 

estão ali
deitados
à babugem da maré
no lodo do seco
onde antes areia
água límpida

aguardam
o acordar
o até sempre
a regata
o apodrecimento

a pátria dos moliceiros
mátria não é
cada vez mais nem de carpideira
estatuto terá

estudemos pois
como é nossa tradição
os que vão morrer
a quem só falta o circo
e césar para saudar

(torreira- monte branco)

 

os velhos (II)


pouco a pouco

recuperam do passado os rostos

a memória

também ela se vai gastando no refazer de caminhos

os nomes

esvaem-se no tempo

como é que se chamava o nosso sargento ?

do que ontem ardia

hoje apenas algumas cinzas

o vento dos dias

pelo tempo a memória espalhou

são três

e à mesa do café jogam

cartas velhas de sebo

batotas antigas de casernas rancho marchas

lembras-te ?

são três e recordam

e assim se unem os velhos

os velhos (I)


assim, como se ainda
os velhos atravessam o tempo de memória
com mão ágil lágrima grossa regressam

os velhos caminham caranguejos lentos
medusas de horas e anos

os velhos ajoelham calos e varizes
nas pedras gastas do passado

os velhos contam histórias antigas
sabedoria de séculos

os velhos afagam as crianças
macias as mãos grossas magras ossudas

os velhos arrastam-se e caem
cansadas as pernas fechados os olhos

os velhos às vezes já estão mortos
outras morrem ainda mais velhos

os velhos vivem e recordam
e não vivem e recordam ainda

os velhos já foram
por isso são