poesia
manuel castelhano. presente!
ser pescador aqui
é viver da fome do mar
é chamar turista
a estrada larga alcatroada
não mereceu nome de ninguém
ficou só “ circunvalação“
assim se destrói a memória
da xávega
com alcatrão
vendem-nos
a imagem no postal
para nos matarem
no local
( o manel já navega noutros mares, aqui continua a ir ao mar.
falo da torreira)
dos moliceiros
estão ali
deitados
à babugem da maré
no lodo do seco
onde antes areia
água límpida
aguardam
o acordar
o até sempre
a regata
o apodrecimento
a pátria dos moliceiros
mátria não é
cada vez mais nem de carpideira
estatuto terá
estudemos pois
como é nossa tradição
os que vão morrer
a quem só falta o circo
e césar para saudar
(torreira- monte branco)
o caos
os velhos (II)
pouco a pouco
recuperam do passado os rostos
a memória
também ela se vai gastando no refazer de caminhos
os nomes
esvaem-se no tempo
como é que se chamava o nosso sargento ?
do que ontem ardia
hoje apenas algumas cinzas
o vento dos dias
pelo tempo a memória espalhou
são três
e à mesa do café jogam
cartas velhas de sebo
batotas antigas de casernas rancho marchas
lembras-te ?
são três e recordam
e assim se unem os velhos
os velhos (I)
os velhos atravessam o tempo de memória com mão ágil lágrima grossa regressam os velhos caminham caranguejos lentos medusas de horas e anos os velhos ajoelham calos e varizes nas pedras gastas do passado os velhos contam histórias antigas sabedoria de séculos os velhos afagam as crianças macias as mãos grossas magras ossudas os velhos arrastam-se e caem cansadas as pernas fechados os olhos os velhos às vezes já estão mortos outras morrem ainda mais velhos os velhos vivem e recordam e não vivem e recordam ainda os velhos já foram por isso são
do além tejo
ser mulher no mar
do além tejo
“na hora de pôr a mesa” de josé luís peixoto




