as mulheres da torreira
sabem do bordão
o peso
carregam-no às costas
como carregam
a lida da casa
as contas da mercearia
o pão para os filhos
o peixe para a janta
a sardinha
arde na brasa
a cavala na panela
as batatas
mais um dia
menos um dia
quem sou eu
para lhes falar do tempo
se só sei ouvir o mar
(um dos instrumentos mais antigos da xávega é o “bordão” – tem este nome na praia da torreira e de “estacadão” na praia de mira)
vergam-se as costas
ao peso das cordas
esticam-se os dorsos
ao brilho do sol
no amparar das mangas
quando vêm do mar
pendura neles o pescador
o farnel
o casaco
apetrechos vários
pesados fardos o bordão
de ombro a ombro carregava
cordas, canastras de sardinha
de ombro a ombro
de homem a homem
são eles que definem as fronteiras
que separam quem trabalha e do saco
tira o pão
de quem em férias, pensa que o trabalho
dos outros
pode caber em sacos de plástico
enchendo-os de peixe que do saco
salta na última esperança
de liberdade
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