companha do pepolim


ir ao mar

vieram do furadouro pescar para os mares da torreira.

estabeleceram-se ao sul do molhe sul. o arrais, conhecido na torreira por “chico de ovar” é da família giesteira do furadouro, responsável pelo reerguer da xávega em medados do século XX na praia do furadouro.

o chico, não me canso de o repetir, é o melhor arrais que alguma vez vi trabalhar.

poema do barco


o óscar miguel (barco) com o rodrigo na proa
é de água a minha terra
terra o meu fim

carcaça
descansarei um dia
na imensidão da areia

com o tempo
desfeito
serei levado pelas marés
ou queimado na fogueira

entre água terra e fogo 
me cumpro

ser barco
é ter sido para voltar a ser

é de água a minha terra
terra o meu fim

artes da ria


uma das artes de pesca utilizadas na ria é a chamada “chincha de pareja”. até meados do século XVIII, no sul de espanha, mais precisamente na catalunha esta arte foi utilizada com o aparelho da xávega.

a rede é arrastada por duas bateiras, varre o fundo da ria e destina-se à pesca da enguia, do choco miúdo, do linguado, do que vier.

uma das bateiras leva a rede que lança à ria ficando com a corda de “reçoeiro”, a outra leva a corda “mão de barca”, as duas lado a lado arrastam a rede que é do tipo de chinchorro.

normalmente a pesca pode durar toda uma noite, cerca de 12 horas, ou mais, até se apanhar caldeirada que justifique a pescaria. a companha é formada por 6 a oito homens, esta inclui uma mulher.

a rede, finalizado o cerco, é alada para a bateira que a carrega e todos os pescadores colaboram no alar manual e no safar do peixe e das algas. é um trabalho muito duro e repetido durante muitas vezes ao longo da faina.

penso que neste momento existem 3 “chinchas de pareja” na torreira e não sei se mais alguma na ria.

esta é a chincha do manel trabalhito, dono da bateira “lutar para vencer”.

a bateira da foto é a que arrasta a corda e à popa vai o filho do manel trabalhito, também manel, que nesse dia ia apanhar uma caldeirada de enguias para se despedir: ia para a pesca do bacalhau ganhar a vida.

é assim a vida dos pescadores da torreira: ganhar a vida no mar e subsistir na ria.

(manuel trabalhito – filho – e carlos tetinha; torreira; 2009)

meu nome é boi


bois de força – marinhões

meu nome é boi
nosso nome é junta

puxamos barcos e carros
carregamos peixe e redes

carne e músculos tensos
olhos desmesuradamente grandes
mansos até ao inadmissível

juntos
somos força somos junta
somos bois

sozinhos
no talho no mercado
esquartejados em carne viva
somos vaca

boi é e não é
é sempre o homem que decide

bois de força – marinhões

(torreira; séc. XX) – do meu livro “quando o mar trabalha“

à memória do ti borras – nascido manuel maria da silva, patacas


(torreira; anos 90; a espera para ver e comprar)

virado para o mar
olhando o longe

recordo o ti borras
pescador de outros tempos
do barcos de quatro remos
de tantas juntas
que não conhecia mar que o impedisse
de trabalhar

se o mar fosse de vinho
ia a pé até à américa
dizia

recordo o ti borras
pescador e senhor dos mares
recordo e não vejo lembrança dele
ficou um beco com o seu nome
que se apagará no tempo

que começa a apagar-se

o tempo não pode ser deixado a si próprio
ainda não atingiu a maior idade

alberto estrela (aos amigos que partiram)


(alberto estrela; torreira; 2006)

boa noite estrela

soube
pelo teu filho
você deve conhecer o meu pai
o estrela

a frase continua a martelar-me
a cabeça

que tinhas partido
ninguém sabe para onde
mas todos sabem que não voltas

sabes estrela
a vida é feita de encontros
e desencontros
nós há muito que não nos encontrávamos

vinha e não te via
e pensava
está para o mar
era normal

e vai continuar a ser normal
porque para mim estrela
tu estás no mar
e é por isso que não nos encontramos

um abraço do teu amigo

cravo

óscar miguel


o barco vai partir
as gaivotas
barcos de outros ares
esperam peixe na rede
sobras a rolar nas ondas

o barco vai partir
enfrentar as ondas
correr atrás do vento
voar atrás das nuvens
planar sobre as águas

sorte se
encontrar um cardume perdido
e o transformar em refeição

o barco vai partir
partimos com ele ?

só para ver
como a vida no mar é dura

(torreira; anos 90)

o óscar miguel ainda ia ao mar. hoje nada mais resta que a memória fotográfica. o desleixo com o património e a sua preservação, fizeram com que do último barco de mar que trabalhou com tracção animal nada mais reste

o arribar em dois momentos


1º momento

e todos se salvaram

com as ondas a rebentarem em cima da ré do barco, a solução foi só uma:

os tripulantes saltaram todos do barco e foi feita a ligação dos cabos aos arganéis da proa e puxado o barco para cima.

à ré vai o arrais, marco, e agarrado ao castelo da proa o delmar viola.

o roçar na areia foi de tal forma intenso que foi necessário virar o barco em terra e aplicar uma nova forra ao fundo.

felizmente tudo acabou em bem

2º momento

com as ondas a rebentarem em cima da ré do barco, a solução foi só uma:

os tripulantes saltaram todos do barco e foi feita a ligação dos cabos aos arganéis da proa e puxado o barco para cima.

à ré vai o arrais, marco, e agarrado ao castelo da proa o delmar viola.

o roçar na areia foi de tal forma intenso que foi necessário virar o barco em terra e aplicar uma nova forra ao fundo.

felizmente tudo acabou em bem

(torreira; 2010)