poema
não sei se escrevi
algum
porém vivi muitos
(mariscador de cabrita alta; deitar fora conchas; torreira; 2013)
dezembro começou com sol
dia bom para lavar e secar o natal
fiz máquina com todos os ingredientes
anticalcário detergente amaciador
programa longo
dupla centrifugação à rotação máxima
estendi na varanda coberta
não fosse a chuva tecê-las
esperei que secasse
quando o tirei da corda estava na mesma
manchas de sangue nódoas de lágrimas
aquele vermelho berrante de refrigerante
enlatado entranhado
depois de tanto trabalho o resultado
foi levá-lo para o contentor de reciclagem
e esquecer mais um investimento familiar
(xávega; dar o porfio; torreira; 2012)
tudo velho no ocidente
cheira-se o sangue
do médio oriente
no corno de áfrica
a vida não vale um corno
a ponta sequer
tudo velho no ocidente
mata-se em áfrica
no médio oriente
dá-me ouro petróleo
metais raros gaz natural
morrer é normal
tudo velho no ocidente
morre-se jovem em áfrica
no médio oriente
não vale um corno
este ocidente
(a mão; o saco de berbigão; torreira; 2015)